a casa do lago

3:00 da manhã, a minha voz é rouca e a sua é trêmula, do outro lado da linha, um silêncio gigante, aposto que você vai se desculpar por me acordar pela segunda vez consecutiva nessa semana. Com as luzes ainda apagadas eu conseguia visualizar claramente você mordendo a boca sem jeito. 

– Já acordei, pode falar – incentivei, mas soei impaciente e não gostei disso em mim – eu meio que estou sem sono – menti, eu podia dormir 10 horas e não seria o suficiente.

– Desculpa, eu não tinha com quem conversar – eu sei que você tinha outras opções, mas eu gosto de saber que sou o primeiro.

Daniela provavelmente estaria dormindo na sua casa hoje, é sábado e você a deixou passar uma noite ai. Não é sua culpa que Tatiana, a housemate dela, adora sexo casual barulhento todo final de semana. Mesmo assim… você não consegue falar não pra ela.

– A Daniela caiu no sono, parece que a Tati resolveu começar as atividades sexuais nas sextas-feiras agora.

– Você não ligou para falar da Daniela – você riu. Eu ri também. Sempre estou de mal humor quando acordo, mas meu sorriso é inevitável quando estou falando com você.

– ”Eu acho que está indo tudo rápido demais, eu te curto muito, mas é minha tendência estragar tudo quando passo muito tempo junto, vamos devagar” – você leu, e eu já sabia quem era o autor por trás daquela SMS, acho que por isso você não me deu mais nenhuma explicação.

– Vamos devagar… ? – repeti o final da mensagem de texto esperando maiores informações, sei que tem coisas que eu estou por fora, mas tudo o que eu quero é estar de fora dessas histórias entre ela e outros caras.

– O Miguel não vai conseguir ir na casa do lago semana que vem, então vagou um quarto. Acabei convidando o Léo sem pensar.

Meu maxilar ficou rígido, eu estou incluso nessa viagem, Miguel é meu primo. A caso do lago é um ritual anual entre meus amigos de infância. Somos em oito no total, e isso tem sido o elo que mantem a nossa amizade de infância/adolescência. O lago dá algum significado para continuarmos juntos, já que não frequentamos a mesma faculdade, não moramos todos na mesma cidade e trabalhamos em áreas distintas.

– Namorados e namoradas são autorizados, o que o Miguel tem a vê com isso?

– É porque o Léo… – você respira e dá uma pausa – não é meu namorado, dai parecida fazer sentido, sei lá… – sua voz diminuiu 50% do timbre, começou a ficar difícil de te ouvir.

– Faz o que? Um ano?

– Um ano, porra se isso não é devagar eu não sei o que é – a risada bem humorada me atingiu do outro lado da linha e eu lembrei como o seu humor oscila rápido. Nunca vi isso em mais ninguém, já te vi em lágrimas nas piores das circunstâncias e ao mesmo tempo fazendo as piadas mais engraçadas, como se toda a dor do mundo não fosse páreo o bastante para a sua habilidade de ver leveza em tudo.

– Eu ia odiar se ele fosse.

Um flashback me atingiu: de quando você ficou bêbada demais antes dos discursos no casamento de um amigo em comum. Tudo por causa desse mesmo cara, que tinha algum compromisso no dia. Eu gostaria de saber o que é mais interessante do que te ver de madrinha. Se me perguntassem como foi a cerimônia eu diria: o vestido da cor marsala fica incrivelmente sexy em você.

– Eu sei, mas é assim… Sabe quando a gente vive aquele dia perfeito na casa do lago? Tipo, geralmente é quando você faz aquelas panquecas com bananas e gotas de chocolate, a Jenny inventa um jogo novo de baralho com o intuito de deixar todo mundo bêbado o mais rápido possível, o Paulo leva um vinho impossível de pronunciar e que não deixa ninguém de ressaca, o Miguel resolve cantar no karaokê bêbado e nunca perde a graça, a Vanessa paga a pizza do jantar porque ninguém sabe cozinhar, o Marcos se oferece para limpar a louça e dar os melhores abraços quando alguém está triste, e a Camila além de oferecer a casa dela todo ano ano, faz toda a programação da viagem e garante que todo mundo esteja feliz, mas dai… Uma hora, todo mundo vai para os quartos acompanhados e eu sempre fico sozinha, toda vez. Eu tento lembrar das coisas boas e de como eu sou inteiramente completa com vocês, mas eu ainda estou na cama sozinha, sabe? Com a lingerie novinha que provavelmente eu comprei na esperança de que alguém vá a casa do lago comigo. – A imagem surge na minha cabeça e por um momento eu esqueço o que é respirar.

– Bom, eu sou o único que leva todo o ano uma mulher diferente para a casa do lago, e esse é meu segredo, está pronta? – o meu tom de voz era diferente do seu, eu estava com a voz mais grossa e menos drogada de sono, você murmura aliviada um “uhum”. Sei que nada o que eu falar vai mudar alguma coisa porque você só quer desabafar e quer que eu a faça rir, como sempre fiz – eu vou na balada um dia antes e acho a primeira alma carente o suficiente para me dar atenção, eu compro uma bebida e falo educadamente com a voz mais bem intencionada possível “eu te levo para casa essa noite”. Elas nunca sabem que eu me refiro a casa do lago e deu certo toda vez.

– Boa tentativa, mas eu lembro muito bem das duas malas de 23 kilos da Laís na viagem passada, a primeira coisa que ela falou quando me viu foi “achei que ele nunca ia me chamar para conhecer aqui”.

Nunca ia chamar mesmo, mas você sempre fala que tem alguém muito especial para me apresentar na casa do lago e eu só penso em como isso vai me machucar. Laís era uma proteção; mas aí você apareceu sozinha.  Igual a vez em que o Lucas conseguiu te tirar para dançar no baile de formatura do colégio na música em que demos o nosso primeiro beijo. Eu fiquei assistindo vocês dançarem a música inteira naquela noite, e me odiei quando ele te levou para casa. Prometi pra mim mesmo que nunca mais iria admitir gostar de você. A única pessoa que saberia seria você, mas daí você sempre está acompanhada e eu fico eternamente te procurando em outro alguém.

– Eu acho que esse cara, olha ele só quer…
– Droga, acordei a Dani, depois a gente se fala.

Ele só quer tirar a suas roupas, enquanto eu só quero tirar essa sua idéia de que você está sozinha.