A Favorita ou Yorgos Lanthimos Light

Yorgos Lanthimos se tornou um dos maiores nomes do cinema independente nos últimos anos. Desde Dogtooth (Dente Canino), filme de 2009 feito ainda na Grécia, até suas produções internacionais com The Lobster (O Lagosta) e Killing of the Sacred Dear (O Sacrifício do Cervo Sagrado) Lathimos criou filmes cuja marca eram a estranheza, o humor absurdo, seco e irônico, entregue num tom estóico por seus atores, além da violência pulsante, que está sempre a um passo da superfície, esperando o menor dos movimentos para mostrar suas garras.

A Favorita, sua maior produção até o momento, é tudo isso, mas numa versão… light. Como se tivessem colocado um pouco de água no suco Lanthimosniano, porque o original era forte demais para as grandes massas.

O filme conta a história real da Rainha Anne, cuja vida foi marcada por inúmeros abortos, tragédias e doenças. A rainha é interpretada magnificamente por Olivia Colman, que dá a ela ao mesmo tempo um ar cômico e trágico. A Rainha, sempre isolada e subestimada pela corte devido a sua mentalidade ainda meio infantil e gosto por entretenimentos questionáveis, como caçar lagostas em um tanque ou apostar em corrida de patos, era constantemente manipulada por membros da corte.

O principal deles era Lady Sarah, Duquesa de Marlborough e amiga de longa data da rainha e que constantemente a levava a favorecer os Wigs no parlamento, apesar da Rainha ser a favor dos Torys. Interpretada por Rachel Weisz, Sarah é dura, firme e intransponível onde Colman apresenta uma Anne é frágil, solitária, confusa e doente. As duas começam a brigar após a chegada de Abigail, prima de Lady Sarah e futura Baronesa de Masham.

Abigail é interpretada por Emma Stone no que todos os críticos dizem ser uma ótima atuação. Hmmmm… eu discordo (como sempre). Seu sotaque britânico pode até ser bom, mas Abigail é uma armadilha de mel para prender abelhas. Ela deve ser doce, maleável, confiável. Ela deve ser tudo aquilo que Lady Sarah não é. Stone até tenta, mas sua interpretação vem como alguém sem carisma, sem doçura. Ao invés de termos uma lenta revelação de que Abigail está usando dos favores da rainha para benefício próprio, temos desde o começo a certeza de que ela não é flor que se cheire. Sua voz de “vitima” na verdade é irritante. Isso acaba por destruir de certa forma o filme, que depende muito do público sentir a mudança e traição de Abigail e fazer o movimento oposto a Rainha ao amar Abigail no começo e odiá-la no final. Eu particularmente a odeio o tempo todo.

Tirando esses leves detalhes, o filme como um todo ainda é uma vitória pra Lanthimos. O roteiro em si é muito simples e batido e na mão de qualquer outro diretor poderia virar um clichê sobre a realeza, como A Duquesa ou A Jovem Rainha Vitória. Mas não. Yorgos consegue impor sua visão até mesmo em histórias que não necessariamente condizem que seu estilo.

Ele traz estranheza, humor e ironia ao tornar a realeza uma grande piada, com suas perucas, danças bizarras e eternas idas e vindas no jogo de poder, tudo filmado numa lente grande angulas que chega a distorcer rostos e ambientes. Também consegue trazer sua própria marca de violência camuflada com cenas gráficas como Lady Sarah sendo arrastada por um cavalo, seu rosto esfolando no chão. Ou até mesmo ao tornar cenas de sexo algo entre o cômico e o nojento. O filme deixa claro algo que é sub-entendido por historiadores: Queen Anne tinha casos homossexuais com Sarah e mais tarde com Abigail. As cenas de sexo são viscerais e bizarras, pra dizer o mínimo.

Esse ar sombrio é dado particularmente pelas atuações de Colman e Weisz. As duas beiram a idiotice infantil em um minuto, para depois irem à inimizade extrema em outro. Colman traz uma fisicalidade ao papel da Rainha que eleva o filme e marca os tempos e atos do roteiro. Ela vai lentamente decaindo fisicamente, tornando-se assimétrica, torta, derretida e quase  grotesca. Já Rachel, que trabalhou com Yogos antes, de todos os atores nesse filme é quem mais compreende seu estilo deadpan de interpretação. Seu próprio figurino é uma versão mais masculina das roupas da época. Sempre como uma armadura, tal qual a personalidade da personagem. Sua recusa em se abaixar para qualquer um, mesmo para a rainha, é o motivo de sua queda e no final das contas a maior lição do filme: só sobrevive no mundo torto da Realeza aqueles cuja moral muda conforme o vento e que estão disposto a ajoelhar e lamber a rainha sempre que for preciso.

Se o público e os blockbusters são a rainha, então podemos dizer que Lanthimos até de ajoelhou, mas nunca deixou de ser ele mesmo no processo.

NOTA: B+