A Ida para Lua e as Escolhas Difíceis de Damien Chazelle

Existem filmes que vamos ver com a ideia já pré estabelecida de que iremos gostar. Seja por que eles tem sua atriz ou ator favoritos, ou porque tem uma história que te interessa muito, ou porque foi dirigido por um diretor que você admira, cujo os trabalhos anteriores tenham te emocionado ou que você tenha se identificado de alguma forma. No meu caso, ao ir ver “O Primeiro Homem”, de Damien Chazelle, nos cinemas, teve um pouco disso.

Eu admiro muito o que Chazelle fez em sua breve – porém não tão breve assim – carreira. Tendo já ganho um Oscar como melhor diretor, com então  32 anos (o mais jovem a ganhar a estatueta até agora) e tendo dois filmes tão emocionalmente poderosos (La La Land e Whiplash), principalmente para alguém que está próximo de sua geração, como eu, era inevitável criar uma certa admiração pelo cara. Então, era claro para mim que eu iria gostar da empreitada mais ousada do diretor até agora.

Eu vi, em um primeiro momento, como uma atitude corajosa da parte de Damien, de se colocar um desafio de afirmação como diretor, mais do que como autor, pegando um roteiro que não escreveu, adaptado de uma biografia, e com uma assunto tão importante na cultura americana, mas que ao mesmo tempo parecia ser tão distante de outros temas que ele já tratou.

A cine-biografia de Neil Armstrong, um herói real norte americano, que está ligado a um dos episódios de maior orgulho para eles como nação dentro da história da humanidade, poderia muito bem ter sido dirigido por diretores mais gabaritados que ele como Ron Haward (que já havia feito o ótimo Apollo 13) ou mesmo um Oliver Stone, ou um Spielberg… mas foi Chazelle quem escolheu esse como o filme que iria suceder seu aclamado e muito bem sucedido musical.

Digo tudo isso para dizer que foi uma surpresa, ao terminar a sessão, pensar que talvez essa não tenha sido a melhor escolha do Damien. Não que o filme seja ruim, ou que ele tenha feito um trabalho ruim como diretor. Penso, de certa forma, o contrário. Ele fez um trabalho ótimo em passar um ponto muito importante com esse filme, definitivamente mais politicamente relevante do que suas outras obras. Porém, é um filme tão duro e preocupado em passar esse ponto que acabou tomando escolhas esquisitas no quesito emocional.

Fica evidente que existiu uma preocupação muito grande de se reproduzir o mais fielmente possível a experiência da viagem espacial. E talvez esse seja o grande trunfo do filme em si, com o roteiro de Josh Singer e fotografia de Linus Sandgren. Todos os desafios e sacrifícios de muitos anos da corrida espacial são colocados na tela, e dão sua base dramática mais sólida. É muito responsável da parte do filme colocar que as coisas feitas para que o homem chegasse a lua custaram vidas, dinheiro e foram sim parte de uma empreitada que não estava acima de críticas, porém que, ao ser alcançada deu o senso de grande evolução para a humanidade como um todo, mas principalmente garantiu aos EUA o título de “maior país do planeta terra”. Ao mesmo tempo que a fotografia, o desenho de som e a forma de se filmar as missões são tão espetaculares que é como se você estivesse nos foguetes junto com Neil.

Porém, o ponto negativo é a dificuldade de se conectar com o personagem de Neil Armstrong, vivido por Ryan Gosling. O personagem de Neil é, no filme, alguém emocionalmente travado e traumatizado. A morte de sua filha ainda muito criança, faz com que ele se torne fechado e distante. Sendo esse filme baseado em fatos reais e de uma biografia autorizada de Neil Armstrong, presumimos que essa visão para o personagem seja correta. Porém não deixa de ser um desafio.

O próprio Ryan veio de uma série de personagens interpretados de maneira parecida, mas com resultados muito melhores, como o Motorista em “Drive” (Nicholas Widing Refn, 2010), ou K em Blade Runner 2049 (Denis Villeneuve, 2017). Essa inabilidade do personagem de por suas emoções para fora fazem com que Neil desgaste seu casamento, se distancie enormemente de seus filhos ainda vivos e, sendo assim, se torna alguém muito difícil de se identificar ou se importar no olhar do público. Mesmo o filme mostrando que Armstrong era um excepcional engenheiro, alguém com uma coragem descomunal em passar por todos os desafios técnicos, físicos e psicológicos da viagem até a Lua, e uma pessoa que provavelmente garantiu que a tentativa de se ir a Lua continuasse, chega a irritar seus momentos com uma expressão de completo descontentamento que carrega durante parte do filme. Nem quando há eventuais sorrisos de alívio e realização com seus sucessos conseguimos escapar da noção de que Neil parece estar com depressão.

Tanto, que fica a impressão de que as motivações de Neil para viagem a Lua não eram mais, em determinado momento do filme, uma busca por novas perspectivas e possibilidades para o homem como ele mesmo relata, mas sim uma forma dele de lidar com seu luto e sua intensa dor. É corroborado a isso o fato de a principal cena do filme, quando Neil se vê isolado na superfície da Lua, que o seu momento dramático fosse ” enterrar”a pulseira que pertenceria a sua falecida filha em uma cratera lunar. Isso é um fato que provavelmente não aconteceu de verdade, porém que Damien escolheu  para validar suas outras escolhas durante o filme de construir esse personagem que ainda sofre com a dor da perda.Essa cena acabou sendo importante também pois substituiu o famoso momento do hastear da bandeira americana em solo lunar.

Infelizmente, após as críticas do senador norte americano Ted Cruz, sobre uma possível falta de patriotismo do filme ao omitir este momento na cena podem ter prejudicado o filme em sua bilheteria e diminuído as chances de Chazelle concorrer novamente a estatueta. Essa discussão está se alongando até hoje, com pessoas dizendo na redes sociais que isso foi uma atitude anti-americana. Isso chega a ser irônico, pois Chazelle, seja por escolha própria ou por indicação no roteiro de Singer, fez um filme bem conservador e patriota.

Damien até chega a problematizar de maneira interessante o programa espacial. Em uma cena que se passa no ano de 1968, manifestantes demonstram desagrado pelo fato do governo gastar dinheiro com a perseguição do sonho de ir a Lua, nela um jovem cantor negro explicita “eu aqui sofrendo com o trabalho que faço para sobreviver, enquanto isso o homem branco está na lua”. Contudo, diversas imagens de arquivo, discursos e colocações dos personagens dentro da NASA deixam claro a grandeza e imprescindível importância desse acontecimento, e como os EUA estão obviamente ligados a isso. Em uma imagem de arquivo fica colocado na fala de uma mulher francesa “Eu sempre acreditei que os Estados Unidos conseguiriam”. E, diferentemente do que tivemos no filme “Estrelas Além do Tempo” (Theodor Melfi, 2016), em nenhum momento se mostra essa missão como fruto os esforços pessoas além de homens adultos brancos e de “família”.

Sendo assim, ao mesmo tempo que é legal como o filme mostra que durante aquela década de 60, apesar de tudo, a corrida espacial foi elementar para o desenvolvimento da sociedade não só norte americana como do mundo todo. Ele também pecou no tratamento de seu personagem principal e de seus dramas.