Analisando uma obra de arte: Murder of Crows

Olá todos e bem vindos. Gostaria de contar uma pequena história pra vocês, sobre como, um belo dia sem eu estar esperando por isso, uma obra de arte me deu um tapa na cara do qual eu não me recuperei até agora. Essa obra se chama The Murder of Crows da Janet Cardiff e George Bures Miller.

O Allora foi criado pensando num lugar onde a gente pudesse falar sobre absolutamente qualquer coisa que nos interessasse, qualquer coisa que ascendesse a chama nerd do querer saber mais – desculpa, isso foi muito Corvinal pra vocês? Algumas pessoas tem um rush de adrenalina saltando de paraquedas, eu tenho essa mesma sensação quando descubro uma nova anedota histórica.

Onde eu quero chegar com isso? Bom… eu gosto muito de artes plásticas. Não entendo neca de pitibiribas sobre o assunto, mas eu gosto muito. Aaah típico. Freud explica isso da gente gostar daquilo que dá um pouco de medo na gente. Tanto do linguajar das artes hoje em dia é exclusionário e elitista. É quase como se você já tivesse que estar inserido dentro do mundo da arte para poder compreendê-lo. Chega até a ser piada os jargões utilizados e como muitas vezes essa junção de palavras difíceis parece dizer muito, mas no fundo não diz nada. Eu sempre me senti intimidada por isso. Nunca quis falar abertamente sobre arte contemporânea com os outros, por medo de estar errada… A questão é, não existe certo ou errado.  Especialmente em arte contemporânea. Especialmente em arte contemporânea que você não entende muito bem, mas que de alguma forma impacta a sua alma, te dá um soco no estômago e te faz acordar um pouco pro mundo.

Resolvi, então, usar o meu muito amor, mas pouco saber pra falar sobre o assunto. Essa é uma análise baseada em mim e nas minha emoções, sem todo blábláblá de um texto curatorial cansado. Seremos só eu e você, observando profundamente uma única coisa e vendo o que a gente pode tirar dali. Vendo se eu faço brotar em você um pouquinho do “rush de adrenalina” que eu sinto quando falo disso… de arte

Hey! Não vai embora não! Juro que arte pode ser divertido, Hannah Gadsby nos mostrou isso! FICA POR FAVOR!

Eu a vi pela primeira vez em 2015, em Inhotim. Não sei quantas pessoas aqui tiveram o privilégio de visitar Inhotim, então para contextualizar, imaginem.: você está no meio de um enoooorme parque, uma reserva florestal, quase. Cheio de jardins e lagos e floresta tropical. Você pode andar, mas os lugares são tão longes que pequenos carrinhos elétricos de levam de lá pra cá. Você entra num carrinho e de repente é jogada no meio do nada, no que parece ser a parte de trás de um galpão abandonado. Não tem nada ali, não tem café, cadeiras, nada. Só esse grande bunker branco com uma pequena portinha entreaberta e escura… te observando. Você entra.

Dentro tudo é muito mais branco e escuro comparado ao ensolarado verde do lado de fora. Você vê um semi-circulo de cadeiras em torno de um auto-falante que na verdade parece muito como a boca de um gramofone, só que não. Ao seu redor, existem – eu sei agora, depois de uma leve pesquisa – 98 caixas de som em vários lugares. Elas parecem formar um circulo também, mas não como as cadeiras. Não. As caixas de som são pretas e pesadas, tem fios elétricos descendo do teto, como veias negras de sangue que se espalham pelo lugar. As cadeiras são ordenadas, limpas, madeira. Cada uma em seu lugar. As caixas parecem se proliferar livremente, desordeiras elas.

Você está então num futuro distópico e pós apocalíptico. Não existe mais a natureza lá fora. Você está sozinho e abandonado nesse lugar. E então começa. Um pequeno som, a princípio. Você nem sabe se ele é real, mas ele vai crescendo. Passos. Uma porta se abre, uma música estranha e etérea começa e te causa calafrios. Você ouve a voz sonolenta de uma mulher te contar o que parecem ser sonhos. Alguns são pura imaginação, outros não. As coisas se misturam, será que a sangrenta fábrica movida a bebês e gatos é real?

Não temos tempo para pensar, para descobrir. Somos interrompidos por um novo som, novamente pequeno, de máquinas e motores e engrenagens. O som cresce tanto que vira um muro, uma enorme parede que te cerca e vai fechando sua garganta com um rumor que se mistura entre fábrica, trabalhadores, cães latindo e  instrumentos, desafinamentos, distorções. Quando o som está tão grande que parece preencher o galpão inteiro e te engolir, ele se acalma. Vira riacho pequeno, correndo livre.

Você corre com o rio, aliviado de estar mais uma vez no mundo natural. A distopia violenta era apenas sonho. Ufa! Distraídos, livres do perigo, vamos correndo rápido com esse pequeno farfalhar, até nos depararmos com outra grande parede sonora. Dessa vez musical. Cantos e instrumentos de sopro e percussão. Estamos no segundo sonho.

Essa é a estrutura que Murder of Crows tem. Um pequeno som nos convida a adentrar um espaço – tanto físico como emocional. Temos aqui o grande trunfo da colaboração de Cardiff e Miller, a maneira como o seu corpo percebe o som e espaço e vai se modificando, vibrando, sentindo e se adequando a ele, como água ou gás quando encontram obstáculos. Eu sei que estamos aqui, de longe, falando teoricamente sobre algo, mas para verdadeiramente entender e perceber essa obra é preciso ESTAR nela, fisicamente. Um vídeo não basta.

O pequeno som te convida a entrar e sem que você saiba ele vai crescendo, crescendo, até se tornar quase sufocante. Você é reduzido à um semi-nada no espaço. Então a pressão diminui. Silêncio. Alívio. Um pequeno som novamente, que nos leva ao próximo, seja ele fala, conto ou música.

São essas transições da obra que eu acho o mais fascinante. Elas se dão de duas formas. A primeira delas a esperada, como uma música no rádio. A segunda tem menos a ver com a edição da faixa sonora em sí e mais com sua posição nas caixas de som. A edição de som se dá pela sua configuração espacial e você só percebe isso estando lá, em corpo presente. Somente assim você compreende como um som pode nascer pequeno em apenas uma caixa, sem ninguém perceber e ir, lentamente, se espalhando para outras e quando você se dá conta, ele está em todo o lugar.

É interessante notar como a percepção periférica da obra pode ser completamente diferente da do centro. Porque nós estamos nesse enorme hangar e existem caixas de som em diferentes lugares, você pode estar longe do centro, longe da “boca do gramofone”, mas ainda assim perto de um som único e específico. Você só ouve o que está perto de você, à principio, e somente quando o som cresce e se torna incontrolável é que você consegue ouvir a coisa toda.

Por um momento eu debati… por que colocar o semi-circulo de cadeiras, então, se o objetivo é fazer o som viajar pelo ambiente? Não seria mais interessante que nós, humanos, seres vivos ouvintes, pudéssemos viajar livremente pelo espaço junto com o som? Mas aí eu me toquei…

É como política, como sociedade. Se nós estamos em uma distopia, o “gramofone” é o líder. É da sua boca que sai o comando, da sua boca sai a voz que nos informa sobre tudo e coloca as coisas sob perspectiva. Depois, você tem um grupo que o cerca. Esse pequeno circulo consegue ouvir a história inteira, recebe todas as informações, pois tudo gira em torno dele. A periferia já não. Está distante, escassa, espalhada e desunida. Só serve para alimentar, com pequenos sons, pequenas histórias, a grande história do centro.

Esse miolo também parece algo sagrado e reservado para uma elite. Na quase uma hora em que fiquei na instalação, cerca de 15 pessoas entraram no galpão. Apenas 3 sentaram nas cadeiras. Minha mãe entre elas. Eu não consegui. Eu andei em volta delas, as cerquei como urubu carniceiro faminto, mas sempre com medo de me aproximar. Eu sentei no chão, tentei criar coragem, mas nunca consegui forças pra me levar ao centro do centro.

Eu fiquei observando. Não, observar não é bem a palavra, pois não era questão de olho e sim se ouvido, de estômago, de vibração de corpo inteiro. Eu fiquei absorvendo – é melhor – os pequenos sons. Em sua maioria eles eram mais naturais: passos, água correndo, gotejando, se quebrando em ondas, o vento. Os sons não eram pequenos simplesmente por sua origem humilde, ou porque eles eram menos altos/volumosos do que os outros, mas sim porque eles começavam em poucas caixas e quando – e se – cresciam, eles iam invadindo outros espaços, outras caixas, inundando as coisas e se espalhando, novamente, como praga, como enchente, de uma maneira incontrolável mas ao mesmo tempo absolutamente natural. Orgânica. São esses os sons que tem o poder de viajar pelo espaço, de percorrer de cá pra lá até decidirem ficar ou ir embora. O som impositor do volume, da parede sônica, da “boca direta do gramofone” não se move. Ele pode ser omnipresente, mas também é intransigente, não maleável, preso em sí mesmo e em seu poder.

Esses pequenos sons naturais de fato tem grande contraste com os sons maiores, novamente, não só por seu volume ou posição, mas também pela própria maneira como eles foram criados e existem no mundo. Os grandes parecem mais industriais e sintéticos. Apesar dos sons naturais serem também manipulados e editados pelos artistas, eles ainda mantém sua origem orgânica, enquanto que a voz de Janet recontando os sonhos, ou a música, provocam uma sensação de história mais manufaturada. Estamos construindo conscientemente uma narrativa de nós mesmos.

Essa narrativa, é claro, como disse antes, tem ares de apocalipse e distopia, mas ela também se parece muito com aquilo que foi nossa destruição no passado, nosso legado falho e frágil. Janet nos conta sobre 3 sonhos. Um sobre uma fábrica no futuro, que mata bebês. Outra sobre uma floresta cheia de escravos negros que se tornam jovens escravos brancos que então tentam correr e fugir – um sinal do colonialismo desfigurado e às inversas. Por fim, temos o sonho sobre uma perna amputada, deixada em uma casa de praia, seguida por uma canção que nos diz que a perna explodiu com uma bomba.

Essas são todas histórias de terror, trauma, guerra, opressão e perda. Nós estamos em luto, em pesar pelos erros causados e danos sofridos. O que, no final das contas, explica o nome da obra. Murder of Crows. Murder of Crows significa um coletivo, um bando, um grupo de corvos; mas também pode significar morte. Não só porque a palavra murder um inglês significa assassinato, e também não só porque a imagem mitológica do corvo está muito associada a do mensageiro da morte – algo complexo demais e permeando culturas demais para eu explorar aqui – mas também porque em um bando de corvos, quando um deles morre, o resto do grupo grasna por um grande tempo. É isso que isto é. Um lamentar audível da perda de uma parte que compõe o nosso todo.

A idéia de coletivo, do bando, da revoada, também está nessa presença dos grandes sons. Sim, eles não são maleáveis como os pequenos sons individuais, mas eles tem a força do conjunto. Eles te chamam para dentro do acontecimento, para o grupo, te conectando com as outras pessoas no ambiente e com a história que está sendo contada. O único momento em que eu cheguei verdadeiramente perto de sentar numa das cadeiras do centro foi assim, ouvindo uma grande coro musical, uma marcha russa, um canto de guerra.

E depois, finalmente, tudo acaba do jeito que começou. Com Janet cantando uma canção de ninar. O ninar cabe perfeitamente aqui, pois é a junção perfeita de tudo. Daquilo que é orgânico, suave e natural, de uma mamãe que sussurra para seu filho dormir; junto com aquilo que é claramente criação humana consciente,  como a letra dessa canção que foi criada especificamente para essa peça. A quietude dessa pequena voz cantando tem na verdade grande impacto emocional. Ela nos puxa para dentro com a naturalidade dO serenar e nos arrasta pra fora com o contexto da canção, com como esse ninar não é ninar comum, ele se mistura com o nosso conhecimento de canções populares do tipo e com o uso, em geral muito privado, que fazemos dela. Ela mistura interno e externo, orgânico e inorgânico, expectativa, realidade, entendimento e emoção.

Nós começamos a peça com passos e uma porta se abrindo – estávamos entrando em outro reino, um outro mundo feito de metade sonho – e nós terminamos indo dormir, como se o sono nos carregasse de volta para depois acordarmos no mundo normal. Foi tudo sonho, é só.