Animais Fantásticos e os crimes de J.K. Rowling

CONTÉM SPOILERS

Okay, okay, eu sei que esse título é batido. Todo mundo já fez essa piada no twitter e eu estou tarde pra festa, mas era necessário! Era necessário porque eu sou MUITO fã de Harry Potter. Por grande parte da minha vida eu acreditei que Rowling era incapaz de errar e que tudo que ela criava era puro ouro. Era como se ela tivesse sido mandada diretamente dos céus para iluminar nossos caminhos na terra. Eu estava errada.  J.K. não só é humana como todos nós, como ela também é capaz de fazer o erro mais humano de todos: mexer no que está bom e cagar tudo completamente.

Os “crimes” da autora podem não ser crimes de verdade. Muitas pessoas dirão que eu estou exagerando, que estou vendo pelo em ovo. Talvez. Não sei, mas pra mim muitos dos erros da autora são graves e vem como uma forma de traição à todo o maravilhoso legado que ela havia construído antes.  Eles vão desde a hipocrisia, passando pela falta de memória e chegando finalmente numa escrita fraca e desconexa, mas vamos lá. Deixe-me enumerar todas as minha acusações contra a réu – porque sim, meu coração machucado de fã vai levar essa metáfora dos crimes até ela desmoronar em si mesma.

Primeiramente, temos toda a polêmica de Johnny Depp. Apesar dessa ser uma história antiga, é absolutamente impossível superar esse fato ao falarmos do filme. Depp já há muitos anos não é o ator que ele foi no passado. Suas atuações são caricaturas de si mesmo, sem nuance ou emoção. Sua escolha para Grindelwald – um personagem que deveria se comparar em complexidade e sutileza na atuação à Dumbledore (interpretado muito bem por Jude Law, juro, talvez minha parte favorita do filme) – já seria errada por si só. Quando acrescentamos as acusações de abuso à ex-esposa Amber Heard a coisa fica inaceitável. Está aí o crime número 1 de J.K. Rowling. A defesa poderia ser de que “ah mas ela não controla o casting”, mas esse navio já zarpou há muito tempo. Primeiro porque sabemos quanto poder J.K. tem nas produções, segundo porque ela mesma fez questão de defender Depp dizendo que “ela sabia mais da situação do que nós”.

Crime número 2 é a hipocrisia e cara de pau. Desculpem falar assim na lata, mas não tem outro jeito. Tem a hipocrisia de por 7 livros lutar contra o abuso de poder e a violência, para então defender um abusador violento. Tem também a boa e velha “representatividade onde não existe”, como por exemplo dizer que Dumbledore era gay, não colocar isso no canôn dos livros e, quando tem a oportunidade de colocar no  filmes, deixa isso passar. Quer maior exemplificação de Queerbaiting do que isso? Espero pelos poderes do headcanon de wolfstar que ela coloque um beijo gay nos próximos filmes…. Ai ai, pelo visto a esperança é mesmo a última que morre. Parece que eu não cansei de ser iludida por essa mulher.

 

E para piorar, essa falsa representatividade tem mais problemáticas ainda. Vamos lá para a evidência número 118 nesse caso criminal: Nagini. Rowling fez a Rowling e anunciou que sempre soube que Nagini era na verdade uma mulher asiática que através de uma maldição de sangue ficou presa no corpo de uma cobra. O elemento “cara de pau” é óbvio. Ninguém em sã consciência acreditaria no fato de que desde 1996 ela estava guardando esse segredo e nunca escreveu nem mesmo uma linha meio ambígua sobre isso nos livros. Mas para além disso, temos duas problemáticas presentes aqui. A primeira é mais fácil de deixar passar, dependendo do seu nível de nerdice para com Harry Potter, que é a mudança de canôn da história original. A segunda é muito mais grave e vem de uma representatividade que na verdade pode ser construída como negativa. Assim como lobisomens serem representação do HIV é uma tentativa de representatividade que faz mais mal do que bem – afinal, todos os lobisomens, tirando Lupin, são apresentados como agressivos e “do mal” (eu falei mais sobre isso no Quarta Parede sobre o Lupin) colocarmos a  única asiática em Animais Fantásticos uma mulher que é desumanizada, escravizada, amaldiçoada pelo seu próprio sangue e que mais tarde serve como escrava de Voldemort, matando pessoas a seu comando e até o alimentando com o seu próprio leite é, na verdade, meio estranho e definitivamente nem um pouco empoderador. Sarah Z exemplifica isso muito bem eu seu video no youtube . Assistam, porque talvez eu não saiba explicar a situação tão bem quanto ela.

De qualquer maneira a história de Nagini abre portas para o terceiro crime de J.K. Rowling: mal desenvolvimento de personagens. Em Crimes de Grindelwald Nagini nos é apresentada novamente, mas nós não sabemos absolutamente nada sobre ela. Não sabemos nada do seu passado, mas também não sabemos nada do seu presente. Como sua relação com o Creedence se formou? Quais as suas motivações na vida? Quais os seus sentimentos em relação à tudo que está acontecendo? Ela fala um total de três frases no filme inteiro. Seu único trunfo na história até agora seria o momento em que ela diz para o Creedence não ir com os puros-sangue “pois são eles que nos perseguem e imprisionam”, não fosse o fato de que sabemos pelo seu futuro de que essa é uma fala que ela irá contradizer ao se aliar a Voldemort, o maior eugenista puro-sangue do mundo bruxo.

O mal desenvolvimento de personagem não fica só em Nagini. Ele está presente em todos, mesmo naqueles que já conhecemos anteriormente. Queenie tem um dos arcos mais interessantes no filme, ao passar de heroína para aliada de Grindelwald. Sua mudança radical fica perdida na história, pois não a vemos sofrer com as restrições do mundo bruxo. Não a vemos tentar de novo e de novo e de novo se casar com o amor da sua vida, o muggle/no-mag Jacob. Não a vemos brigar com a irmã por causa disso. Não a vemos se isolar no mundo e ir lentamente perdendo a cabeça porque não existe escapatória para sua situação. Não existe desenvolvimento e crescimento. As coisas simplesmente acontecem.

Leta Lestrange também é uma boa exemplificação. No primeiro filme ela é constantemente citada e aludida. Quando a conhecemos agora, existem muitas camadas a serem exploradas. Sua relação familiar entranha, o fato de que ela ser fundamentalmente boa em uma família fundamentalmente ruim, sua amizade com o Newt e como eles se separaram ao longo do tempo, como ela começou a namorar Theseus, etc. No entanto, pouco disso é elaborado no filme. E no final ela morre sem que a gente fique sabendo mais sobre sua história. Olha aí a representatividade meio idiótica de J.K., a única mulher negra dos filmes morre no final, yaaay…

Por fim, temos o crime número 4. O menos grave de todos eles? Hmmm, talvez, mas vou adicioná-lo à lista mesmo assim porque eles são importantes pra MIM pessoalmente. E eles são: as mudanças de canôn. Pode parecer meio bobo, mas não é. Uma das coisas que torna a saga Harry Potter tão boa é a qualidade de seus personagens secundários e o quanto Rowling é boa em plantar pequenas pistas, pequenas sementes aqui, para colher no futuro. Os sete livros originais parecem perfeitamente interligados, sem um fio fora do lugar. Mudar o canôn é arrebentar vários desses fios. E quando personagens secundários tem tão poucos fatos e histórias explicitados nos livros, nós fãs nos apegamos a cada detalhe. Mudar isso é mudar toda uma construção mental que fizemos desses personagens a partir desses detalhes. É dizer que tudo aquilo que eu achava que eu sabia sobre o meu personagem favorito na verdade estava errado.

Por exemplo a relação Aberforth e Albus Dumbledore. Porque Albus foi negligente com sua família e isso levou à morte de sua irmã, Aberforth nunca perdoa completamente o irmão e o julga eternamente pela sua falta de aliança para com a família. Aberforth era absolutamente ligado à irmã e seria também à um possível outro irmão. Adicionarmos um outro Dumbledore secreto é dizer que Aberforth, o cara que dava atenção para a família, não sabia disso. Como isso é possível? Se Albus sabia da existência de Creedence (já que ele manda Newt para Nova York justamente por isso), como Aberforth não saberia? E mesmo se ele não soubesse no tempo presente de Animais Fantásticos, ele saberia na época de Harry Potter. Por que isso não entra na lista de problemas que ele tem com o irmão junto com Arianna?

Sem contar que toda essa história de “você é um Dumbledore, Creedence” desfaz todo o serviço feito no primeiro filme, né? Porque em Onde Habitam, Grindelwald não sabia quem Creedence era e o tratava mal. Ele só se interessa pelo menino ao saber que ele é um obscurus. Passamos o filme inteiro falando de obscurus só pra agora esquecermos isso completamente e focarmos só na profecia muito louca. Hmmm, legal, bacana, deixa eu apagar aqui todas as previsões que eu tinha pro futuro da série baseada nos obscurus… Aham, vou desfazer aqui rapidinho, só um minuto.

Não vou contar isso como um crime completo, mas man oh man, esse é meu argumento final para vocês, juris hahahahha. Iai, vocês concordam comigo ou não? J.K. Rowling é culpada por mexer onde não deveria e ir destruindo o legado de Harry Potter ou ela é inocente e merece continuar em suas atividades criminosas como escritora?

Hmmm, okay, tendo terminado esse texto, admito que talvez você tenha razão e eu tenha levado a metáfora dos crimes longe demais… Opsss, mas agora já foi. Tá vendo? Acabei de fazer a J.K. Rowling e não soube parar enquanto ainda estava bom…

Ps- Don’t @ stans da J.K.