Blackkklansman, Cameron Post e os ciclos de opressão

Ontem comecei minha jornada pela 42a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Esse ano, a programação manda uma mensagem velada, mas muito clara para aqueles que a procuram: esse é um ano para repensar estruturas sociais e preconceitos sistêmicos. Temos documentários sobre nazismo, sobre eleição de Donald Trump nos EUA, sobre torturados e “desaparecidos” (mortos) da ditadura militar brasileira, sobre jovens negros sendo baleados por policiais brancos racistas nos EUA. Tudo isso em documentário, mas as ficções não ficam tão atrás, afinal, não é parte da função social da arte refletir seu tempo? Pois bem, o nosso tempo é um tempo de ódio.

O que os filmes de ficção que assisti ontem – The Miseducation of Cameron Post (de Desiree Akhavan) e Blackkklansman (de Spike Lee) nos mostram é que esse ódio não é só parte do NOSSO tempo. É um ódio que existia em 1916, existia em 1970, 1990, e existe agora em 2018.

A principio esses dois filmes não tem muito em comum. Cameron Post conta a história de uma adolescente (Chloe Grace Moretz) órfã e criada pela tia, que nos anos 90 nos EUA se apaixona por uma menina e é pega em flagrante beijando-a. Ela é então enviada para uma escola católica que pratica “conversão gay” através da religiosidade e com uma exaustiva tortura mental, onde cada jovem é destruído emocionalmente até passar a odiar sua sexualidade.

Já Blackkklansman conta a história de Ron Stallworth (John David Washington numa atuação magnífica e digna de Oscar), o primeiro policial negro de Colorado Springs nos anos 70. Ron enfrenta muito racismo de seus colegas na policia, até ser transferido para o setor de Inteligência, onde consegue – pelo telefone – fazer contato com a Ku Klux Klan. Ron então enlista a ajuda de Flip Zimmerman (Adam Driver), um policial judeu, para se passar por Ron em encontros da KKK e assim desarmar “a organização”.

O que ambos os filmes tem em comum é a linguagem usada para desacreditar minorias e instalar dúvida, preconceito e ódio. É a lavagem cerebral lenta e permissiva que ocorre para que se criem justificativas para defender o preconceito. É a criação de toda uma mitologia da opressão, onde opiniões viram fatos, teorias da conspiração reinam e a verdade é tão distorcida que nem mesmo pode ser considerada real. Pronto, a narrativa para os racistas e homofóbicos está posta.

Em teoria feminista fala-se muito sobre como o machismo se estabelece numa pirâmide. A base da pirâmide é a linguagem. É você só ter xingamentos envolvendo a desmoralização de mulheres: “filho da puta”, “corno”, “puta que te pariu”, “você joga como uma mulher”. A base são piadas do dia a dia sobre mulher não saber dirigir e coisas do tipo. Essa base permite que outras coisas cresçam em cima. Quando a linguagem é permitida, a violência é justificava. É a linguagem que permite o cat-calling, que por sua vez escala para assédio sexual, estupro e por fim o feminicídio.

O mesmo acontece aqui com a homofobia e o racismo. Essa linguagem, essa distorção da realidade, tudo isso permite uma escalada de violência. No caso de Cameron Post essa violência é internalizada e auto-inflita, pois a linguagem é implantada nas próprias crianças LGBTQ, para que elas se questionem e sintam tanto nojo de si mesmas que esse ódio imposto por terceiros se externa na auto-mutilação.

Já em Blackkklansman temos os dois lados. Vemos a luta do movimento negro dos anos 70 tentando mudar a mentalidade da comunidade, fazendo com que as pessoas se sintam bonitas e empoderadas com seus cabelos naturais, seus narizes largos e lábios grossos. É a tentativa através do orgulho e amor próprio de destruir esse ódio imposto pela opressão, que nos permeia como indivíduos e nos faz duvidar do nosso próprio valor. Entretanto, a luta não é só interna. Há também um inimigo externo real e que coloca em risco não só a condição social dos negros, como sua própria segurança física.

É por isso que Ron se infiltra na KKK. Ele sabe que ali não é só um clube do ódio onde racistas podem usar livremente a linguagem mais depreciativa possível; e sim um lugar onde a palavra inflama o ódio que por sua vez se manifesta em violência. Ron, como ele mesmo diz, “tem pele no jogo”, ou seja, é sua vida que está em risco caso essa violência escale. E ao saber que Flip é judeu, Ron pergunta porque ele não liga tanto? Porque ele não sente tão forte e pessoalmente a ameaça da KKK.

E em um dos momentos mais profundos e humanos do filme, Flip diz que ele é judeu sem ser judeu. Ele nunca ligou muito para isso, nunca frequentou sinagogas, não participava do bar/bat mitzvah dos amigos, ele mesmo não fez o dele. Em sua vida, ele sempre foi um outro menino branco no meio de meninos brancos. No entanto, agora que ele está infiltrado e constantemente ouvindo histórias falsas e xingamentos, Flip se questiona. Questiona o quanto seu afastamento do judaísmo o concedeu diversos privilégios que ele nem mesmo sabia ter. E o quanto rituais, cerimônias e pertencimento podem ser, também, uma forma de resistência contra aqueles que querem te destruir.

A princípio, Cameron Post termina numa nota positiva, com a personagem principal escapando de sua situação (olha, quem reclamar de spoiler vai levar um tapa na cara, porque claramente essa não é a coisa mais importante aqui!). Blackkklansman até tem seu momento de glória, onde Ron, Flip e toda a comunidade Black Power se sentem vitoriosos ao “apreender” (okay, talvez esse spoiler seja demais…) certos membros da Ku Klux Klan e outras figuras racistas da cidade.

O filme, porém, não para aí. Ele mostra o quanto cada vitória da “resistência” (que nem deveria ser chamada assim, pois o simples ato de existir como negro, como LGBTQ, como mulher, já é resistir preconceitos) é seguida de uma nova batalha contra a opressão. O ódio é como uma Hydra, para cada cabeça cortada, nascem duas outras. Nós temos o depoimento de um senhor que em 1916 viu seu amigo negro ser linchado por um crime que não cometeu. Vemos a morte de Martin Luther King. Vemos Ron nos anos 70 gloriosamente dando um tapa na cara metafórico em David Duke, mas também vemos logo em seguida os membros remanescentes da KKK queimando uma cruz em frente à casa de Ron, mandando uma mensagem clara de que não acabou. Por fim, vemos Charlottesville em 2017 com a manifestação de neo-nazis/supremacistas brancos. Vemos a morte de Heather Heyer (a quem o filme diz “rest in power/descance em poder”). E em nossas cabeças e corações, vemos o futuro do Brasil.

A sessão de ontem terminou em gritos de #EleNão #EleNunca. Os espectadores aplaudiram e gritaram. Eu só chorei. Chorei porque é absolutamente exaustivo ter que resistir todos os dias, por uma vida inteira e ainda assim saber que a próxima geração também terá que lutar contra as mesmas coisas, e a próxima e a próxima. Chorei porque não vi a luz no fim do túnel. Sempre fui daquelas que acredita que é importante lutar agora para que no futuro as coisas mudem, para que meus filhos, meus netos, não tenham que lidar com os mesmos problemas; mas, é muito difícil ter esperanças quando você vê as mesmas discussões que aconteciam no passado acontecendo agora, os mesmo problemas se repetindo eternamente. É o medo infundado dos comunistas dando abertura a um governo anti-democrático no Brasil. NOVAMENTE. É, nos EUA, a situação de Anita Hill se repetir 20 anos depois com Christine Blasey Ford. É você andar pelas ruas, seja no Brasil, seja nos EUA, seja em tantos outros lugares do mundo onde o fascismo cresce e começa a dominar, e ver suásticas pichadas em muros, sinagogas, até mesmo igrejas católicas.

Parece que não aprendemos nada com o nosso passado e estamos eternamente fadados a repeti-lo. Eu gostaria de ter forças para acreditar que esse não é o caso. Talvez em breve eu a recupere mas, no momento, enquanto todo mundo gritava e aplaudia, eu só chorava pelo nosso passado, presente e futuro.