The Chilling Adventures of Sabrina e a força da sororidade

Antes de começarmos, um pequeno disclaimer: Parece bobo escrever sobre uma série de TV adolescente em vista dos acontecimentos da noite passada. Depois da eleição da barbárie, da violência e do ódio, quem poderia ainda estar pensando nessa série? Pois bem, eu estou, e agora mais do que nunca. Primeiramente porque acho que – boa – arte será a nossa salvação. Segundo porque não quero que nossas vidas, nossos gostos, nossos amores e paixões parem simplesmente porque tem pessoas no mundo que prefeririam que eles não existissem. Não seremos apagados. E por fim, porque eu acho que Sabrina é relevante nesse momento. Essa talvez seja a série que a juventude precise ver agora.

The Chilling Adventures of Sabrina (ou CAOS como ficou conhecida na internet) abraça fortemente a idéia de que as mulheres feministas de hoje em dia são “as netas das bruxas que vocês não puderam queimar”. Mulheres, por centenas de anos, foram associadas à bruxaria pelo medo patriarcal da força feminina e sua conexão natural com a Terra. Os homens, assustados com essa possibilidade de poder inerente, especialmente com o que aconteceria se as mulheres se unissem e usassem de seu poder, as queimavam na fogueira… Ou as prendiam dentro de casa, as oprimiam, as diminuíam e as matavam. Ou melhor: oprimem, diminuem, matam. Tempo presente, infelizmente.

CAOS usa exatamente dessa idéia de bruxas e sororidade como ato revolucionário para criar um show feminista e que contesta o patriarcado e suas figuras de poder. Sabrina Spellman, aos 16 anos e metade mortal, metade bruxa, tem que escolher qual caminho seguir: assinar sua vida e liberdade para o Senhor das Trevas (o famoso Capiroto/Tinhoso, como queira) em troca de poder, ou seguir livre, mas sem sua magia. Ela, no entanto, questiona por que escolher? Por que nesse universo mulheres podem ou ter poder ou ter liberdade, por que não os dois? Um dos principais princípios da Igreja da Noite – nome da “religião” adotada pelas bruxas – é o livre-arbítrio, a independência. Por que então atar sua autonomia à um Senhor maior? A resposta está na pergunta, dizem algumas bruxas do coven de Sabrina: o Tinhoso é homem, ele é O SENHOR. Para ele, ver uma mulher com poder e liberdade simultaneamente é perigoso.

Existe sempre esse subtexto de que apesar da sociedade bruxa ser patriarcal e machista, comandada pelo Satã e seu sacerdote homem, a força da comunidade está com as mulheres. Sentimos essa tensão, como se uma fina camada encobrisse uma eletricidade muito maior e mais poderosa. As mulheres são o verdadeiro poder. E é lindo ver essas mulheres se ajudando, apesar dos pesares. CAOS sabe mostrar como mulheres podem e devem se unir e apoiar umas às outras, porque existem momentos em que o bem coletivo é maior do que intrigas pessoais. A série não deixa de ser um drama adolescente. Nós temos as meninas malvadas que fazem bullying, chamando Sabrina de “mestiça” e “aberração”. Temos as divergências com as tias – figuras maternas de Sabrina – etc. Todos esses clichês e brigas entre mulheres existem, mas mesmo discordando em outros momentos elas se unem quando necessário. Prudence e suas irmãs, apesar de passarem a primeira parte da temporada odiando Sabrina, a ajudam a se vingar de homens machistas que agrediram Suzie, uma pessoa não-binárias do colégio. Tia Zelda quebra as leis da igreja para ajudar Sabrina a exorcizar um humano possuído por um demônio. Até mesmo fora do mundo bruxo, em sua vida humana, Sabrina e suas amigas se unem para formar o WICCA, um grupo feminista que protege e luta pelos direitos das mulheres dentro de uma escola absolutamente machista.

Sabrina nunca aceita nada de cara, pura e simplesmente porque os outros disseram que ela deveria. Ela quer entender as regras e, se elas não forem justas ou não tiverem um bom motivo, quer mudá-las. Isso fica muito claro em seu confrontamento com a Igreja da Noite; seja porque ela não concorda (às vezes com razão, às vezes BEEEEM erroneamente, mas enfim, spoilers…) com a politica de não intervenção de bruxos no mundo humano, especialmente quando isso poderia previnir mortes e sofrimento, seja porque ela não concorda com práticas antiquadas e violentas da doutrina, como por exemplo o desprezo à tudo que é “outro”/diferente. Bruxos menosprezam humanos e consideram taboo se misturar com eles. Sabrina ser metade humana é uma aberração e uma absoluta “deslealdade” com a Igreja. Não são só humanos que bruxos inferiorizam. O tratamento concedido aos familiares – goblins que tomam forma animal para ajudar bruxos e bruxas… ou melhor, o que o novo Salém é nessa série – é muito parecido com o de elfos-domésticos em Harry Potter. É como se eles fossem criaturas inferiores que estão aqui para servir e nada mais. Mesmo Sabrina, que tenta estabelecer essa equidade no começo, na verdade passa o resto da série mandando Salém fazer coisas. Todo esse papo de “somos iguais, você me protege e eu te protejo” é absolutamente balela.

O problema maior está, na realidade, com o fato de que existe na Igreja uma mentalidade de seita/cult, onde Satã é o líder inquestionável e você deve sempre agir cegamente segundo a vontade dele. Você se opor ou contestar qualquer coisa é imediatamente ser vista como alguém de pouca fé, e ser rejeitada dentro da comunidade, facilitando assim a perpetuação de conceitos ultrapassados. No entanto Sabrina joga luz em tudo isso, deixando claro o quanto a Igreja na verdade é manipuladora e contraditória e o quanto suas figuras de autoridade abusam de seu poder para ganho próprio, como o caso do sacerdote supremo, que usa de sua posição para trair sua mulher, não assumir sua filha “””””bastarda””””””, valorizar apenas homens dentro do circulo de poder, etc…

Aliás, a masculinidade tóxica está presente em quase todos os homens mais velhos da série. Satã, o sacerdote, até mesmo o diretor da escola de Sabrina, que acoberta os abusos dos meninos do time de futebol e assedia sexualmente suas professoras. A geração mais nova, com Harvey e Ambrose, parece trazer uma nova mentalidade, mais tolerante e menos machista, para a mesa. Harvey, mesmo tendo sido criado por seu pai que quer que o filho seja esportista, trabalhe nas minas, não demonstre sentimentos, não seja artista, não goste de ler, “não seja maricas, você tem que ser macho se quiser ser meu filho”, ainda é todas essas coisas que o pai não gostaria que ele fosse. Ele apoia – sem roubar espaço e voz – o grupo feminista WICCA. Ele não tem medo de seus sentimentos ou de sua fragilidade. Eu, no entanto vou dar uma opinião que talvez seja bem impopular: não acho que Ross Lynch, o ator que interpreta Harvey, tenha sido uma boa escolha. Ele não traz a leveza e o sentimento que o personagem tanto precisa. Sua atuação é dura como uma pedra, ele é quase “too cool for school”. Mesmo interpretando um personagem mais quente e carismático, ele ainda carrega a mesma atuação que trouxe como o psicopata Jeffrey Dahmer em My Friend Dahmer.

Apesar disso, acho como um todo as atuações e casting magníficos. Chance Perdomo como Ambrose como um jovem bruxo preso por seu passado politico (que faz na verdade um papel parecido com o do antigo Salém dos anos 90) pansexual e absolutamente cheio de charme, é um dos destaques, mas obviamente quem rouba a cena sempre são as mulheres. Da maravilhosa Kiernan Shipka, que ainda está crescendo em sua atuação, às já estabelecidas e rainhas da minha vida Miranda Otto como Tia Zelda, Lucy Davis como Tia Hilda (que aliás é um dos papéis mais complexos da série, a princípio parece alivio cômico, mas não é, na verdade tem uma história trágica de rejeição, exclusão, isolamento – ela é uma bruxinha solar e lufana cercada somente de bruxas trevosas e sonserinas ou corvinas ou até mesmo grifinórias bem egoistas hahaha). Michelle Gomez – que acabou de sair de uma excelente temporada como Missy em Doctor Who – talvez ganhe a minha estatueta exclusiva de melhor atuação. Ela usa todo o seu poder de olhar maníaco, semi-louco, mas focada em seus objetivos, para interpretar Mary Wardwell, uma mulher com um plano, mas que, sinceramente, amiga, vamos aqui conversar, porque eu não quero dar grandes spoilers, mas seu plano podia ser muito maior/melhor. Você poderia ser a dona dessa porra toda… mas enfim.

A série cumpre o que prega. Ela pede mulheres fortes? Ela tem mulheres fortes em seu elenco. Ela pede representatividade, multiplicidade e espaço igual para todos? Ela dá com seu elenco multi-étnico/racial. Não temos somente aquele um “token black”, não, temos vários e sua negritude vai de algo importante dentro da personagem, como o militantismo de Roz, até algo que nem mesmo é citado ou questionado – e nem deveria ser! – como em Prudence. Temos representatividade asiática com Adeline Rudolph fazendo uma das Wicked Sisters, temos representatividade não-binária com Lachlan Watson que faz Suzie Bishop – uma personagem também não-binária na série.

Eu cresci vendo Sabrina, The Teenage Witch na Nickelodeon. Aquela série não se propunha a nada mais do que ser engraçada e divertida e no entanto foi uma enorme influência na minha vida. The Chilling Adventures of Sabrina quer muito, muito mais do que isso. Ela quer questionar a sociedade em que vivemos, quer mudança, quer feminismo e sororidade e quer prestação de contas daqueles que estão no poder. Imagine crescer como ESSA Sabrina? Imagine o quão mais bem resolvidas as futuras gerações não serão depois dessa? Bom, que Satã nos ouça, como diria a Tia Zelda.