Como refazer um filme

O filme Suspiria, remake do clássico de terror cult de Dario Argento, assinado pelo badalado diretor Luca Guadagnino (de Me Chame Pelo Seu Nome) e o roteirista David Kajganich (da nova série da HBO, The Terror), ainda não tem data de estreia para o Brasil. O que é bem chato, pensando na boa e controversa impressão que o filme deixou nos festivais lá fora. Felizmente, tive a oportunidade de ver o filme no último 31 de outubro, em uma sessão especial de Halloween em Nova York. E que experiência que foi. Não só pela aura diferente de ver o filme em uma sessão a meia noite com todos vestidos de monstro, mas por que o filme é uma das experiências cinematográficas mais extremas que tive (sem esperar por isso) nos últimos anos. Fora que, na minha opinião, foi uma verdadeira aula de como fazer um “remake” bem feito.

Por falta de ter alguém com quem conversar sobre o filme, achei que valeria escrever um texto. E acredito que qualquer um pode lê-lo, não por que não contarei “spoilers”, por que eu vou contar (fique avisado), mas por que o filme é tão cheio de nuances que eu com certeza deixarei significados e interpretações para trás. Então, num geral, a ida no cinema ainda é válida.

Antes de falar do filme de Guadagnino, vale relembrar um pouco do clássico para quem não o viu. O filme de Dario foi lançado em 1977, e conta a história de uma estudante de balé americana que se transfere para uma academia de dança de prestígio em Munich, Alemanha ocidental, mas percebe, após uma série de assassinatos brutais, que a academia é uma fachada para uma conspiração sobrenatural. A história em si não chega a ser contada de forma inovadora (o bem “prevalece” no final do filme), os personagens são meio rasos e o seu desenrolar prioriza o choque e o gore. O que transformou o filme em um clássico e uma referência são as escolhas visuais de Dario Argento em construir um mistério expressionista com o uso de cores, principalmente o vermelho, e enquadramentos que impediam de se ver quem realmente atacava as vítimas. O Horror é um fetiche visual nesse filme. O filme também contou com a trilha sonora da banda de prog rock, Goblin, algo que não seria totalmente novo para época, mas com certeza pouco convencional.

No remake, a história permanece, porém ganha um grande desenvolvimento, contornos mais séries e talvez poderiamos dizer, mais relevantes. Vale comentar que Guadagnino e Kajganich estruturam o filme como um grande romance, com 6 atos e um epílogo. Nele se dividem algumas histórias, mas principalmente a história de Suzy (Dakota Johnson), uma jovem dançarina de Ohio, oriunda de uma família menonita (tradicionalistas religiosos, próximos aos mormons) que abandona a familia após a morte de sua mãe e vai até Berlim oriental no outono de 1977 para ingressar na academia Markos de dança, para ser tutelada pela cultuada e enigmática Madame Blanc (Tilda Swinton).

A outra história que estrutura o filme é a do psiquiatra, Josef Klemperer (também interpretado por Tilda Swinton), que começa uma investigação sobre o grupo de dança após o desaparecimento de uma de suas pacientes, a perturbada Patricia Hingle (Chloë Grace Moretz) que vinha demonstrando surtos de pânico e paranoia em suas sessões com  Klemperer. Nelas, ela delirava sobre uma conspiração de bruxas e a existência de três entidades malignas chamadas Mater Suspirium, Mater Tenebrarum e Mater Lachrymarum.  Vale lembrar que Dario Argento lançou mais dois filmes para tratar das outras entidades, então sequências ou prequels não são riscadas do futuro desse filme. Enfim, no desenrolar da obra conhecemos mais sobre a academia, suas alunas e representantes, que acabam por formar uma carismática porém macabra congregação de bruxas que tem um plano para usar Suzy como o recipiente para a matriarca do grupo, madame Markos, continuar vivendo. Toda vez que umas das alunas parece desconfiar do plano ou alguma interferência aparece, as bruxas usam de magia ou mesmo da explícita violência extrema para resolver o problema.  Contudo, uma entidade sobrenatural paira sobre a academia, principalmente assombrando os sonhos de Suzy, que no fim da trama acaba por se revelar alguém diferente de quem imaginávamos.

Sobre a trama vale comentar que ela trabalha com alguns temas muito interessantes como o sagrado e o profano feminino, estruturas matriarcais possíveis, o processo de criação artístico (no caso a expressão corporal e a dança) como uma forma de magia e, talvez, o abuso de poder e a culpa nacionalista – uma certa interpretação política da trama de Dario, ao fazer extensas contextualizações históricas do filme com os ataques do grupo Baddder-Meinhof e a presença do personagem de Kemplerer que vive a culpa do abandono da mulher judia durante o regime nazista.

Tilda Swinton, com uma interpretação digna de Oscar como Madame Blanc e Kemplerer, encarna uma versão ocultista de Pina Bausch que, através de sua peça de dança contemporânea “Volk”, prende todos em um transe. Os motivos específicos de Blanc não são claros. É obvio que ela faz parte das bruxas da congregação que buscam usar Suzy, porém internamente, seu pensamento sobre a validade para a permanência de Markos, sua mãe, como matriarca do grupo a deixa em crise, pensando que talvez a presença de Suzy seja especial.  Isso é apresentado por todas as cenas da relação entre as duas, como elas se complementam artisticamente e como a prodigiosa de Suzy, como a personagem principal da peça, a leva a ser escolhida pela entidade Mater Suspium como um receptáculo para o julgamento das atitudes criminosas das bruxas, que estão cegas por vaidade e poder.

Na sequência final do filme, durante o sabbath das bruxas para a matriarca Markos, Blanc é morta pela própria mãe, por querer repensar toda a cerimônia por estar sendo feita por motivos perversos. Nesses instante, uma cena dantesca se desenrola em que Suzy revela sua identidade e chama um espectro infernal para matar as bruxas malignas da congregação e assim libertar as alunas de um transe que as mantêm vivas mesmo estando deterioradas fisicamente pela magia de Markos. Essa cena em si é tão absurda quanto clássicos do cinema surrealista e exploitation dos anos 70, como A Montanha Mágica de Jodorowsky e Os Demônios de Ken Russel.

Diferente do filme de Dario, Guadagnino não usa as cores berrantes e cheias de expressão, ele usa uma paleta de cores neutras, apagadas e beges, para criar uma atmosfera meio morta em relação as cenas de dança. O filme todo tem um tom próximo de filme alemães da época, como os clássicos de Rainer Werner Fasbinder. O grande destaque hermético do filme, porém, é o uso dos sons: barulhos ofegantes, respirações, suspiros, gemidos entre outros efeitos que dão uma aura etérea a determinadas passagens do filme. Ele também se vale mais do mistério da trama pela narrativa do que por apelos visuais, mas isso não faz o filme ser menos primoroso em sua mise-en-scène.

Em uma montagem maravilhosa o diretor sobrepõe a cena da morte da mãe de Suzy, onde sua respiração super ruidosa serve como um marcador de tempo e fonte de forças para a filha dançar uma sequência da performance extremamente complexa. A performance da garota que chama a atenção de Blanc em sua primeira audição na academia e, mais tarde, serve como um encantamento por interferência das bruxas para quase matar uma das alunas que desconfia das intenções de Blanc e as outras mulheres da academia ao entregarem a papel principal da peça a Suzy, papel esse que pertencia a Patrícia (que estava desaparecida). Essa  última cena ficou famosa por fazer algumas pessoas saírem do cinema passando mal no festival de Veneza. Para mim foi uma das cenas de dança mais surpreendentes que já vi, misturando perfeitamente o grotesco e o belo.

Por fim, não podemos deixar de comentar o trabalho ótimo de Thom York na composição da trilha sonora. Em uma forma de espelhar o original, Guadagnino chamou York para trazer o aspecto inovador de composição que o inglês já usava em sua banda, Radiohead, para dar uma melancolia abstrata com sons que vão de uma balada pop até música concreta.

Eu poderia continuar descrevendo diversas cenas ótimas que estão nesse filme, porém acho que no fim será mais interessante vocês verem no cinema quando finalmente o filme sair por aqui. O que vale é saber que é um filme riquíssimo, uma verdadeira conquista para o cinema de gênero, com uma visão não americana. E uma aula, como havia dito antes, de como podemos pegar um filme, ou melhor, uma história, contá-la novamente de uma maneira completamente diferente e ainda ser a mesma história. Mas, com um aprofundamento de significados e personagens muito bem vindo.