(des)afetos na 33a Bienal de Arte SP

Comandada por Gabriel Pérez-Barreiro, a 33a Bienal de Arte de São Paulo vem justamente destruir essa idéia de “comando” e de curadoria como grande tese artística e guia maior dentro de uma exposição. A partir de seu conceito de Afinidades Afetivas, Pérez-Barreiro convidou sete artistas curadores que teriam reino livre para criar mini-exposições dentro do Pavilhão da Bienal, repensando assim a hierarquia entre arte e curadoria.

Línguas Douradas de Leda Catunda… e eu completamente apaixonada

O conceito pode ter surgido a partir da idéia de deixar os artistas mostrarem como constroem suas genealogias e sistemas para entender suas próprias poéticas, mas o resultado final tem bem menos a ver com isso. Ao invés de afetos, temos então sete núcleos separados e isolados, que não se conversam. Cada nicho curatorial, por assim dizer, não só difere em espírito e proposta (o que seria okay, dado que cada artista constrói sua estética da maneira diferente) mas também tem densidades, uso de espaço e até mesmo compreensão da temática absolutamente divergentes.

Quando se anda pelo Pavilhão da Bienal o que fica é uma construção esquizofrênica do espaço, onde as transições não se dão de forma orgânica e você sente cada mudança, cada quebra e isso, por vez, quebra o seu fluxo interno e qualquer relação afetiva que você poderia criar entre cada nicho. Assim sendo, sinto que a única maneira sincera de avaliar essa exposição é indo núcleo a núcleo e falando de cada um. Qualquer outra espécie de “temática” possível de ser criada ali é, na verdade, um grande remendo, tentativa frágil de configurar conexões que talvez não existam ali. No máximo no máximo existe a possibilidade de um circuito político com Aparições de Lhola Amira, Rua 57 de Siron Franco e a parte dedicada à Aníbal Lopez, mas isso talvez seja a excessão.

Vamos então às curadorias artísticas.

SENTIDO/COMUM de Antonio Ballester-Moreno

Vivam os campos livres (2018) de Antonio Ballester-Moreno

Trata da idéia de arte no mundo real, como coisa a natureza, orgânica e mutante e em eterno aprendizado. Dentro da noção de “afinidade” talvez o conceito de Moreno seja de relacionar homem, corpo – como matéria física que existe no mundo, nasce, cresce, aprende, morre, apodrece e vira coisa nova – e obra. A curadoria é absolutamente coerente dentro de sua própria proposta, mesmo que seja dispersa.

Quase como uma floresta desmatada, você vê ali um sopro de vida, mas a idéia que fica na verdade é a do vazio e do que já foi ou poderia ser.
Existe um reaproximar da arte com o dia-a-dia e ver com olhar mais lúdico aquilo que é cotidiano. Por isso talvez tornar arte uma espécie de cordel que você pode levar para casa [obra Catálogo de amuleto de Carmen Barojas] ou tratar objetos de ensino como obra de arte em uma área inteira dedicada a Frierich Frobel, um dos criadores do conceito de edução infantil e kindergarten. Por fim, isso também aparece na obra que, para mim, mais se destacou nesse nicho: Mark Dion e sua Estação de campo: Parque Ibirapuera, brincando entre a arte e a ciência, catalogando objetos, coisas, animais, todos os achados possíveis existentes dentro do parque.

Estação de campo: Parque Ibirapuera – de Mark Dion

Essa obra acabou me chamando a atenção não só pelo seu setting e construção, mas também pelo seu aspecto mutante e contínuo. Ela é a síntese da curadoria de Moreno, trazendo aspecto performático, colaborativo e natural. O elemento de pesquisa, caminhada e olhar atento ao redor acaba trazendo questionamentos importantes, como a inclusão de garrafas de vidro quebradas ou lixo plástico jogado no chão, misturados à fauna e flora do parque, nos fazendo pensar sobre pertencimento. O que pertence ou não ao parque? A garrafa de água vazia deixada no chão pertence ao parque? Ela está ali… Isso nos leva a repensar o que pertence ou não no museu e dentro do espaço do Pavilhão da Bienal.

 

A INFINITA HISTÓRIA DAS COISAS OU O FIM DA TRAGÉDIA DO UM de Sofia Borges

Essa é uma que é difícil pra mim. A começar que o texto curatorial disponível no site é bem diferente do texto apresentado na exposição (o do site é muito melhor e mais condizente, mas como ele não estava alí, na cara do gol na hora do vamos ver, não sei se posso levá-lo 100% em conta).

No texto que abre seu nicho, Sofia Borges diz: “Essa curadoria é um ato selvagem. (…) É uma tragédia. E não é teatral, não é dramática, não é narrativa, não é temática”. Isso pra mim é uma grandessíssima bobagem pretensiosa, justamente porque o que essa curadoria propõe é EXATAMENTE uma narrativa teatral e dramática (vide o fato dela ser inteira forrada por cortinas de veludo, como um grande palco aguardando a peça começar) sobre a criação do mundo, o surgimento da matéria e do consciente. Como as coisas nascem, se manifestam, se tornam reais.

Eldorado (2018) de Leda Catunda. Nem tudo que reluz é ouro, essa peça não contém nenhum metal

No começo temos, por exemplo,  a pedra, o metal, o frio e o fogo, o tribalismo. A linda obra Eldorado de Leda Catunda – feita especialmente para a Bienal – ilustra bem isso. Depois, vamos lentamente nos humanizando, virando menos bruscos e fundamentais e mais fluidos e complexos. Isso fica claro com a aparição de Tunga e suas peças de barro (um grande destaque desse ano) e a volta de Leda, retomando sua temática do dourado, mas dessa vez menos “dura e fria” e mais humanizada com a obra Línguas Douradas – também comissionada pela Bienal. As formas são mais orgânicas, preenchidas e acolhedoras.

Tunga e as terríveis cortinas de veludo

Como um todo essa é a curadoria que eu mais gosto em termos de obras, mas é a pior em termos expográficos e arquitetônicos. Sofia quis criar um labirinto expositivo, onde você tivesse que passar por certas obras em certa ordem e não pudesse escapar – elemento que combina com sua idéia de formação e também o tom teatral, mas que em termos práticos não funciona. É irritante e excessivo. Tão irritante quanto as cortinas. Seu aspecto dramático chega a ser dolorosamente óbvio, além de muito brega. Elas tiram o impacto de várias obras. Por fim, sei que fazia parte da intenção de Pérez-Barreiro que cada artista curador se inserisse na curadoria, mas as obras de Sofia perto de outros grandes talentos aparece claramente como o elo-fraco no que poderia ser uma exposição incrível.

 

O PÁSSARO LENTO de Claudia Fontes

Nota de Rodapé de Claudia Fontes em parceria com Pablo Mantín Ruiz

Okay, aqui o texto curatorial não faz o menor sentido. Ele basicamente fala “O pássaro lento não funciona em nossa exposição como um tema ou ideia a ilustrar, e sim como uma figura ambígua oferecida como território comum a partir do qual os artistas convidados iniciaram processos criativos únicos e diversos entre si”. Pra mim isso é um grande nada. Falou, falou e não chegou a lugar nenhum.

No entanto, a curadoria em sí faz mais sentido que o texto. As obras todas tem elementos em comum, que falam de ocupação de espaços e tempo de experiência. Uma instalação muito interessante é Ex Situ de Sebastián Castagna, onde você entra em uma sala absolutamente escura (tão escura que é obrigatório uso de equipamento de segurança) e onde é recomendado ficar por no mínimo dois minutos, para que seu olho se ajuste ao breu e comece a perceber as fracas projeções de árvores – algo que remete ao “lado de fora” não só daquela obra, como também do próprio Pavilhão da Bienal – junto com sons tirados de contexto e que se movem pelo ambiente. É uma experiência tremendamente sensorial e, a princípio, claustrofóbica, mas que se transforma com o tempo. Torna-se catártica e libertadora.

Essa área como um todo requer tempo. Para ler – existe um livro chamado Pássaro Lento que é distribuído gratuitamente e que tem contos e textos dos artistas convidados – para assistir. Essa curadoria tem uma enorme concentração de videos, incluindo o overhyped Sala de Estar de Roderick Hietbrink onde uma enorme árvore invade um pequeno apartamento. A obra foi uma das favoritas da minha mãe e, de fato, de muitas pessoas na exposição. Pra mim não valeu tão a pena assim. Me pareceu que o impacto emocional e o resultado final não condizem com a grandiosidade do evento.
De qualquer maneira, se vídeo é a sua coisa, essa é a área pra você.

 

SEMPRE, NUNCA de Wura Natasha Ogunji

Aparições de Lhola Amira

Conceitualmente – e politicamente – talvez o mais interessante. Composto inteiramente por mulheres de origens diversas (sul-africana, nigeriana, porto-riquenha, libanesa, marfinense, senegalesa, francesa, americana e cigana) que questionam a questão do corpo, especialmente o feminino e de cor, e sua presença em territórios e sítios comuns. Questionam fronteiras e arquitetura e a construção política dentro disso.

Essa também é a parte mais interessante para quem comprar o catálogo da Bienal esse ano, inteiramente composto por posters e livros de artista. O livro de Ogunji contém ela entrevistando cada uma das artistas convidadas em sua curadoria, numa conversa verdadeiramente relevante e importante para as artes em 2018.

Tudo isso pra dizer que, no entanto, o nicho em si é bem meh. Meio vazio, pálido e sem grandes emoções. Tirando o maravilhoso Aparições de Lhola Amira que questiona o colonialismo e a ferida ainda viva da escravidão, mais nenhum obra dessa curadoria me marcou verdadeiramente, apesar do conceito geral por trás ser o mais interessante e relevante para o contexto atual.

 

AOS NOSSOS PAIS de Alejandro Cesarco

minha mãe maravilhosa e uma reprodução de Andy Warhol na abertura de Aos Nossos Pais

Ah, finalmente uma curadoria que não se leva tão a sério! Ignore o tom formal do texto curatorial (eu o farei aqui) e foque na graça das obras apresentadas. Claramente falando de passado e presente, de reprodução e “obras icônicas” e o que as tornam icônicas, e o que torna uma obra “real” ou “fake”, especialmente em casos onde as obras em sí são passíveis de eterna reprodução, como as pop arts de Warhol ou os ready-mades de Duchamp.

Juventude de Magdalensberg de Oliver Laric

Esse nicho tira uma onda com o esnobismo da arte, ele ri um pouco de suas próprias tradições e afetações e questiona o porque delas. Dois destaques importantes são a escultura Juventude de Magdalensberg de Oliver Laric que mostra uma escultura clássica greco-romana feita de plástico transparente, quase como uma “lembrancinha” que você compra na loja do museu; e o hilário vídeo Morte ao manequim de John Miller e Richar Hoeck (vocês podem assistí-lo AQUImas eu não darei spoilers, porque vale muito a pena chegar sem expectativas, só direi que virou uma das minhas coisas favoritas da vida toda).

Uma das minhas áreas preferidas da 33a Bienal, provavelmente por ser tão leve, engraçada e ciente de si mesma. Vale especialmente em contraste com outras curadorias que tem proposta de arte contemporânea parecida, mas o fazem de maneira tão esnobe que dá preguiça (cof cof Waltercio Caldas cof cof).

 

OS APARECIMENTOS de Waltercio Caldas

Waltercio Caldas é cool demais para legendas…

Falando em Waltercio Caldas, cheguemos a ele… Em seu texto curatorial ele diz “É sempre bom lembrar que as verdadeiras obras de arte ignoram qualquer discurso que as desvirtue e são suficientemente eloquentes para desautorizar interpretações oportunistas”. Tá, okay, entendo a idéia, mas também acho semi-impossível fazer uma leitura limpa de obras conceituais sem contexto histórico e texto curatorial, tal qual quer Caldas.  Seja porque o conceito permeia a obra para aqueles que tem conhecimento dela, ou seja porque a falta de um texto curatorial, de uma dica que nos ajude a interpretar e fazer senso da obra, enfraquece a obra de tal forma que tinge nossa percepção do potencial dela.

A idéia toda é a arte falar por si só, sem texto e contexto. No espaço, nem mesmo placas com os nomes existem ao lado das obras. É preciso procurar por elas num mapa. Não existe fala curatorial nenhuma associada. A questão, porém, é que com uma arte tão conceitual como a apresentada nesse nicho, se você tira o contexto ou um mínimo de explicação, o público em geral não conhecedor de arte contemporânea (ou até eu, que sei um pouco mas não tanto assim pra olhar pra uma coisa e reconhecê-la de imediato) fica perdido porque, não, essas obras não falam por si só. Desculpa, mas elas precisam de uma ajudinha básica para guiar a mente. Talvez ao ler o texto e analisar a obra você nem concorde, você tenha outras impressões, mas é esse texto quem te guia, que te ajuda a percorrer um caminho mental. Sem ele você fica no vazio, olhando para algo privado de parte de seu poder.

Isso pra mim é o auge do artista arrogante. É por causa de exposições exclusivistas como essa, desenhadas para aqueles que já tem conhecimento prévio de arte o bastante para interpretar as obras presentes, que as pessoas de um modo geral veem arte contemporânea com maus olhos. Me irritou muito. 100% pistola.

 

STARGAZER II de Mamma Anderson

🎵 Mamma não África 🎵

Talvez a mais criticada por trazer uma arte conservadora, pictórica (algo que não seria ruim por si só, mas aguarde que o contexto piora) e, acima de tudo, masculina, branca e européia. Mamma Anderson, no entanto, é a artista que mais seguiu a idéia original de Pérez-Barreiro de afinidade e uma construção da genealogia pessoal da obra do artista-curador. Ela partiu de obras que ela mesma tinha em sua coleção pessoal e para as quais ela sempre retornava em sua pesquisa artística. Ali de fato cria-se um micro-cosmos do que é a sua arte e suas principais influências. Okay, pode ser controverso, talvez até retrógrado e, no mínimo no mínimo, não muito diversificado e não o que a gente espera de uma Bienal de Arte em 2018 – dizem as más línguas que deu até briga entre ela e a mais politizada Wura Natasha Ogunji – mas, com certeza é uma representação de quem Mamma Anderson é como artista.

Para quem vai ver, é meio chato. Se pictórico é a sua vibe, recomendo muito mais o nicho individual dedicado à Vania Mignone, com pinturas por hora com cara de quadrinhos, por hora de pôster, criando um falso senso de narrativa. Muito interessante. Bem mais do que Mamma e seu conjunto de homens brancos.

Sobre as individuais – vale muito a pena ver Aníbal López entrevistando um matador de aluguel na frente de amantes esnobes da arte na Documenta em Kassel. Também vale a pena conferir o nicho individual dedicado a Lucia Nogueira, artista nascida no Brasil mas cuja carreira floresceu em Londres. Apesar de ter sido muito importante para a cena artística britânica, ela não é muito conhecida no Brasil e a 33a Bienal apresenta um breve panorama de sua obra. Não a conhecia e me apaixonei fortemente. Siron Franco e sua série Rua 57 é absolutamente imperdível e emocionante. Feliciano Centurion faz arte têxtil muito pessoal, para simultaneamente aquecer e machucar um pouco seu coração. Por fim, passaria reto por Nelson Felix, um desperdício enooorme de espaço e do meu tempo (o livro de artista dele, presente no catálogo, é bem mais interessante do que todos os metros quadrados de nada que ele ocupa no Pavilhão).