Dom Quixote vive

“E agora, depois de 25 anos de fazer e desfazer, um filme de Terry Gilliam”

Assim começa O Homem Que Matou Dom Quixote. Pode parecer pressão demais colocar assim, logo de cara, que o filme está ruminando da cabeça do diretor há tanto tempo. É querer vê-lo falhar ao não cumprir certas expectativas… Mas eu não acho que essa frase esteja ali pra isso. Ela não está ali nem mesmo para nós, expectadores. Não é com a gente que essa frase fala, e sim com o universo. É mais uma piada contra o destino. Um grande “tá vendo? você achou que eu estava na pior?”.

Essa afronta aos Deuses não vem por pouco, não. O diretor Terry Gilliam, do famoso Monty Python, sofreu todos os contratempos possíveis em Dom Quixote. O filme começou a ser desenvolvido em 1989, mas só conseguiu angariar fundos para iniciar produção em 98, com Jean Rochefort como Quixote e Johnny Depp como Toby (papel que é hoje de Adam Driver). Quando começaram as gravações, Rochefort se acidentou e precisou ser afastado, parte do set foi inundado e equipamentos foram danificados, eles tiveram problemas com o seguro. Enfim, o projeto foi cancelado. A tragédia do filme que poderia ter sido mas não foi está registrada no documentário Lost in La Mancha. Mesmo assim, talvez por teimosia, talvez por realmente acreditar em seu roteiro, talvez por egocentrismo, Gilliam decide insistir na idéia e entre 2003 e 2016 ele tenta de novo e de novo refazer o filme. Passaram por ali Depp, que “perdeu interesse no projeto” (pelo menos aí uma benção que Terry recebeu)  Ewan McGregor, Robin Williams, Robert Duvall e John Hurt.

Depois de todas essas reviravoltas, em 2016 o filme finalmente engata e conclui suas filmagens, com Adam Driver no papel de Toby, um jovem diretor de cinema que agora está ganhando fortunas para fazer propagandas milionárias de vodka ou o que quer que seja (o produto não importa, o que importa é o status). Desestimulado e sem imaginação para seguir em frente, Toby encontra uma versão pirata misteriosa de seu primeiro filme “O homem que matou Dom Quixote”, um projeto universitário feito em película P&B e gravado em uma pequena vila espanhola com não atores – bem coisa de gente que aos 20 anos se acha a reencarnação do Fellini, mas que no fundo não sabe nada sobre nada. De qualquer maneira, o diretor acredita que sua criatividade e amor pela sétima arte ficaram perdidos em algum lugar durante aquele filme, e ele decide buscá-la voltando à vila de origem e conversando com os “atores”. Chegando lá ele descobre que ações tem consequências e que, ao usar não atores em sua obra, Toby revirou de ponta-cabeça a vida de algumas pessoas no vilarejo, alguns com enormes consequências. Não sei de Gilliam sabe, mas essa foi quase uma critica não intencional à Cidade de Deus… de qualquer forma, voltemos ao filme.

Toby descobre que o sapateiro que convenceu a fazer Dom Quixote (interpretado brilhantemente por Jonathan Pryce) agora enlouqueceu e realmente acredita ser o cavaleiro de La Mancha. Não só isso, mas Dom Quixote está vagando por aí, velho e sozinho, achando que Toby é seu Sancho Pança. A crença é tão real que ele é capaz de matar policiais num piscar de olhos se isso significar salvar seu escudeiro para que eles possam partir em busca de aventuras.

Uma dessas aventuras é o resgate de Dulcinéia, que na verdade é Angélica, uma mulher que, aos 15 anos, foi usada por Toby para ser atriz em seu filme e logo após fugiu de casa para tentar ser atriz e acabou caindo na prostituição. Agora, adulta, Angélica está em um relacionamento abusivo e violento com um magnata da vodka que, sim, você adivinhou, está buscando um contrato de comerciais com Toby.

Vulture apontou em sua review o quão misógino o filme é ao ser dominado por vozes masculinas e por normalizar pedofilia, com Toby flertando com a Angélica de 15 anos, mas também ao ver todas as mulheres como objetos sexuais. Como damas indefesas a serem resgatadas ou como bruxas traiçoeiras que usam do sexo como arma, como o caso de Jacqui, a mulher do chefe de Toby, que tenta constantemente seduzi-lo nos piores momentos possíveis. De fato, não tem como não problematizar a sexualização de uma criança, ainda mais por ser algo absolutamente dispensável para a construção do filme. Os outros pontos, porém, contém verdades e… enfim, não mentiras, mas nuances. As mulheres são de fato estereotipadas entre madonnas ou putas, mas essa categorização vem do imaginários dos homens dentro do filme, não do filme em si e muito menos das personagens femininas. Essas mulheres não são frágeis, elas tem pleno controle de suas ações. Ninguém as manipula. Jacqui pode ser a vilã por ser uma mulher sexualmente liberada, mas existe a outra moeda, onde ela na verdade se prova mais inteligente do que todos os homens ao seu redor. Ela é dona de seu corpo e sua situação. Angélica pode estar presa em um relacionamento violento, mas não é Toby ou Quixote que a salvam – até porque eles não estão em condição de salvar ninguém, convenhamos. É ela mesma que se tira dessa situação, que se percebe melhor e maior do que seu ex-parceiro abusivo. Nós a vemos ter mais habilidades do que Toby, a vemos cavalgar melhor do que ninguém, jogar facas e, no final do dia, até mesmo resgatar Toby e virar assim seu Sancho… e quem sabe algum dia até o próprio Quixote.

O Homem Que Matou Dom Quixote pode não ser nem de longe o melhor de Gilliam. Pode nem mesmo justificar 25 anos de insistência em sua feitura mas, se deixarmos isso de lado, é um filme muito bom e talvez um dos mais pessoais do diretor.

O longa-metragem, em suas mais de duas horas de duração não perde o ritmo ou a graça em momento algum. É uma versão aguada de O Cálice SagradoDoutor Parnassus, mas que ainda assim consegue ser sua própria coisa. Um filme que, como quase todos do diretor, brinca com a linha entre realidade e ilusão. Vamos todos lentamente entrando na loucura de Quixote e começamos a ver gigantes onde na verdade temos moinhos. Essa é uma obra sobre o que é imaginar e construir coisas do zero a partir disso. É auto-referente, onde Gilliam é ao mesmo tempo Toby, um diretor que cresceu para além dos seus talentos e agora tem que lidar com pressões monetárias e da indústria e se sentindo esgotado em seu papel de estrela; e também Quixote por ter o poder de ver magia onde os outros não veem nada. Ou talvez de ver a verdade onde os outros veem uma camada de mentira conveniente.

A maioria das criticas achou esse filme mediano. Como eu disse, não é o melhor do diretor. Talvez o seu melhor, assim como o melhor de Toby, assim como o melhor de Quixote, more no passado. Talvez esse sonho de perfeição não possa nunca mais ser atingido, mas talvez, também, a perfeição seja inimiga da criação, da graça de construir coisas absurdas sem se preocupar demais.

São poucos os diretores hoje em dia que podemos chamar de Quixotescos como Gilliam. No sentido de criar uma mitologia/universo pessoal que, quando questionado, pode não se sustentar, pode não fazer sentido algum, mas que traz uma sensibilidade infantil, de jogo e alegria e empolgação. Traz um brilho no olhar e uma faísca criativa no coração. Quando vemos um filme de Terry, somos todos Toby, céticos no começo, questionando, duvidando, mas de repente nos vemos presos no sonho, na ilusão. Começamos a acreditar naquele mundo fantástico e nos perdemos dentro dele até sairmos do outro lado sendo Sancho, fielmente ao lado de nosso Quixote. E quem sabe essa fagulha que ele nos deixa não nos leve além, não nos faça Quixote também. Não nos faça capaz de criar novos universos. Muitos diretores são bons e coerentes em suas obras, mas nenhum consegue ser tão inconsistente e incoerente como Terry Gilliam e mesmo assim fazer de nós melhores escritores, diretores, produtores, seres-humanos.

Terry dedica esse filme aos Quixotes que perdemos no caminho: Hurt e Rochefort. Que eles iluminem para que a praga em cima desse filme se quebre – porque no momento ela ainda está rolando, com o ex-produtor processando por propriedade intelectual e o filme sendo impedido de ter lançamento internacional. Se não for, bom, teremos então essa figura elusiva de um cavaleiro que vai galopando de festival de filmes em festival de filmes, e os poucos que sabem da suas facetas dirão contos sobre elas aos outros, incrédulos, até que tudo vire mito.