Eternity Girl e as dores de ser (ou não) herói

Uma ex-humana, ex-heroína, atual semi-deusa imortal, sem corpo, formada apenas de conexões atômicas e consciência, quer morrer, mas não consegue. Essa é Caroline Sharp de Eternity Girl, uma nova minissérie do selo jovem Young Animal da DC, com curadoria de Gerard Way e escrita por Magdalene Visaggio e ilustrada por Sonny Liew.

Caroline costumava trabalhar como super-heroína para a misteriosa Alpha 13. Um dia ela embarcou numa missão contra Madame Átomo e se transformou em outra coisa. Sua fisicalidade perdeu forma e ela agora pode se espalhar entre uma fina rede de átomos. Seu corpo não é mais uma única matéria, mas pequenas partes infinitas que não fazem mais dela ELA e sim uma outra coisa inexplicável. Com sua forma alterada, Caroline volta a trabalhar, mas descobre que ainda não tem total controle de seus poderes e acaba sendo afastada da agência. Isolada e sem saber o que fazer consigo mesma, Caroline vai ficando mais e mais incerta de si mesma e mais deprimida. Ela sente como se não tivesse mais controle de nada, como se o universo apenas a carregasse para lugares que ela não queria ir. O que resta, se não a morte? Uma pena que Caroline não pode mais morrer, uma vez que ela é pura energia e consciência… e energia não se destrói, só se transforma.

Esse é um background que eu estou te dando assim, de presente, mas que a HQ te faz trabalhar muito para entender. Eu não sou a maior fã de quadrinhos de super-herói. Não leio quase nada da DC, então ouvir nomes como Alpha 13 ou Milk War não querem dizer absolutamente nada para mim, mas não importa. As poucas informações que temos vão formando um quebra cabeça e essa falta de contexto e a constante mudança de tempo e espaço na verdade casam muito bem com a própria confusão mental da personagem principal.

Afinal, todo o canon DC não importa aqui. Essa não é uma série de super-herói em seus dias de vitória e glória, mas uma série do depois do herói, uma série dos dias de perda onde você já passou da sua melhor fase e daqui pra frente é só ladeira abaixo. É o definhar do glorioso. Nós não precisamos saber sobre o que veio antes, pois o antes era heróico e bom. Pequenos detalhes podem mudar aqui e ali, mas a história dos heróis vencedores é sempre mais ou menos a mesma. O objetivo aqui não é ver isso, mas explorar o que nunca vimos antes: a aposentadoria de um ex-herói que está absolutamente desgastado, fadado e sofrendo.

A saúde mental de Caroline é o cerne dessa minissérie de apenas 6 volumes e cujo o bind-up deve sair em breve. Seja quando ela de fato está falando de seu estado mental indo na terapia, ou quando entramos num reino fantástico que só os quadrinhos de super-herói podem oferecer, tudo pode ser visto como uma metáfora para a depressão.  Seu não-corpo e não materialidade funcionam como a sensação que muitos tem ao estarem deprimidos de serem inconsequentes, um grão de areia no meio da multidão, podem desaparecer e nada mudará e ninguém sentirá sua falta. Sharp leva isso para o extremo e da metáfora para a realidade ao literalmente se desfazer; perder seu estado físico e virar átomos espalhados. Ela é a personificação da depressão. Quando seu corpo perde o controle e explode no trabalho e ela é afastada, vemos aqui uma versão do estigma contra a saúde mental. Você não é mais capaz, não pode mais conviver em sociedade. Você é afastado e nada que você faça é capaz de provar que você está “bem”, porque a visão que os outros tem de você como alguém instável está instaurada. Tudo que Caroline faz pode ser visto sob a lente da saúde mental. Pode parecer meio chato e óbvio para quem lê assim, mas não é. Magdalene Visaggio o faz com sutileza e maestria, conseguindo criar um enredo que te prender e te confronta constantemente.

A dor de Sharp é tão grande que ela se dispõe a se juntar a sua arqui-inimiga Madame Átomo para destruir o cerne da existência – o equilíbrio entre caos e ordem. Ela pretende acabar com o tempo e espaço e todos os possíveis passados, presentes e futuros que existem ali. Todos os múltiplos universos e possibilidades. Tudo para que sua dor acabe.

Os multiversos, aliás, aparecem paralelamente em uma mesma página, nos confundindo e quebrando a linha entre realidade(s) e o que está acontecendo só na cabeça de Caroline – se é que está acontecendo na cabeça de Caroline e não de verdade. Enfim, parece confuso, mas casa muito com a situação em questão. Afinal, a maneira como Caroline (e sua personificação da doença mental) vê o mundo é diferente da nossa. Sua realidade não é igual a de “pessoas normais”. Sua vida interna, o que acontece em sua mente ou em mundos-paralelos ou no alto-espaço não é a mesma realidade que outros humanos possam enxergar ou sentir.

Esse é um dos trunfos de Eternity Girl, uma visão realista da depressão, que mostra ao mesmo tempo a dor real e o egoísmo inerente de quem sofre. Um ótimo exemplo é o quanto Caroline e sua melhor amiga vivem em conflito, uma não entendendo a linguagem da outra. Uma falando de dor e a outra falando de esperança, sem que nenhuma seja tangível para a outra.

“Às vezes nos fechamos na neblina de nossa própria dor e esquecemos o quão conectados com o mundo nós estamos” é uma das falas da HQ e não poderia ser mais verdadeira. Caroline está em tal estado de espírito que é impossível enxergar outras possibilidades de vida… No entanto, outras possibilidades existem.

Depressão não é uma escolha, ninguém escolhe sofrer, mas permanecer nela, sem pedir ajuda, se definhando e se definindo como pessoa através da sua dor e não-existência, isso é uma escolha. Escolher tentar é muito difícil. Pode exigir uma força imensurável, mas ela é possível. Eternity Girl nos mostra que a depressão nos tira não só do mundo, mas de nós mesmos. Embaralha prioridades e nos diminui ao mínimo da humanidade, mas existe um outro lado onde podemos chegar se escolhermos enxergar para fora de nós mesmos e nossas circunstâncias. O outro lado pode não ser talvez o que esperávamos, pode ser que nada volte ao normal nunca. Certamente para Caroline não irá voltar. Caroline está morta, mas de sua morte algo novo nasce, algo que pode ser tão bom quanto: Eternity Girl.