Fun Home – uma tragicomédia em família

Para quem gosta de quadrinhos, Fun Home é um nome facilmente reconhecível, ganhador de vários prêmios. Para quem não gosta, mas se interessa por movimentos LGBTQ+ e feministas, ainda deve reconhecer o nome de sua autora, Alison Bechdel – sim, esse sobrenome lhe soa familiar porque essa e a mesma Bechdel que escreveu Dykes to Watch Out For e deu origem ao famoso Teste de Bechdel.

Recentemente Fun Home foi relançado no Brasil pela Editora Todavia e voltou a ser discutido no espaço público nacional, então eu decidi pular no trem e fazer minha review desse livro que é essencial para amantes de graphic novels e mais ainda para amantes de graphic novels biográficas.

O livro conta a história real da juventude de Bechdel e suas relações familiares, especialmente com seu pai. Alison cresceu numa casa de artistas e estudiosos, com dois irmãos músicos, uma mãe atriz e seu pai professor de literatura, ex oficial do exército, diretor de uma casa funerária (daí o nome fun-home) e absolutamente obcecado por decoração, design de interiores e restauração… ah, e gay – talvez. Esse é um segredo secreto que deverá ser guardado a sete chaves apesar de meio que todo mundo já saber, mas ao mesmo tempo nunca ser dito.

Eternamente preocupado em remodelar a casa onde mora e construí-la e desconstruí-la à perfeição, o pai de Alison não é exatamente do tipo amoroso. Com o pai sempre de mau humor e sem paciência para suas estripulias de moleca, Alison se vê isolada dessa figura paterna e incapaz de entender da onde vem suas frustrações, desejos e, especialmente, tamanha infelicidade.

Quando Bechdel vai para a faculdade e começa a ler sobre teoria queer e feminismo, ela finalmente se reconhece como parte da comunidade LGBTQ+ e volta para casa para se anunciar como lésbica para os pais. É aí que ela descobre, através da mãe, que seu pai é secretamente um gay enrustido. A partir daí temos então uma revisão do livro e de toda a história que vimos até agora. Em um estilo bem “fluxo de consciência” nós passamos novamente por momentos do passado com novos olhos, preenchendo pequenas lacunas com informações do presente. O livro vai e volta em seus acontecimentos, “como um grande labirinto de memórias”, a medida que Alison passa a re-entender e re-estruturar suas lembranças a partir do que ela sabe agora, adicionando camadas de percepção e reconhecimento.

Parte do motivo pelo qual esse livro é tão icônico não vem só das temáticas que ele aborda, como família, sair ou não do armário, aceitação social e preconceito, mas também da maneira como tudo isso é apresentado. Existe na voz de Bechdel uma enorme sutileza, fica claro ali um olhar profundo, humano e falho das coisas. Ela tenta nos explicar sentimentos e sensações usando referências literárias (algo que, mesmo não dito, não explorado, a une com seu pai). Algumas dessas referências eu tive que buscar no google, dado o nível de importância que elas tomam na narrativa. Esse foi um livro que eu tive que reler algumas vezes para apreciar suas camadas. Nós temos primeiro a noção de mistério, de tentar desvendar os comos e porquês. Depois existem as citações, a literatura e filosofia que Alison estuda, que iluminam o caminho e trazem um ponto de referência. Por fim, se lermos novamente e com cuidado, podemos enxergar a coisa toda com os olhos da autora, finalmente. Sem barreiras, sem medo. Um olhar que é melancólico, agridoce, e até de certa forma nostálgico por uma vida que poderia ter sido, mas não foi.

Alison tem tudo para ser mais próxima com o pai. Ambos gostam de literatura, ambos tem uma enorme apreciação por arte e estética – mesmo que manifestadas de maneiras bem diferentes – e ambos tem que conviver com as incertezas que vem com sua sexualidade. No entanto isso não os une. Há eternamente a dificuldade de um lado em compreender as nuances do outro e a vontade humana de categorizar, de colocar as coisas em preto ou branco, se sobrepondo ao desejo de ambos de se conectarem.

Estranhamente, a desunião com o pai também não a torna mais próxima dos seus irmãos. Não existe no livro um momento de conversa real entre eles. Sua mãe também parece uma figura esquiva e a qual não temos muito acesso. Verdade seja dita, ela depois dedicou um livro inteiro a sua relação com a mãe, mas em Fun Home ela não é muito abordada e sua ausência é estranha e eternamente sentida. Pelo menos sentida por mim. Fica subentendido que a mãe é tão frustrada quanto o pai. Ambos presos em um casamento que não tem futuro, em uma cidade pequena demais para suas ambições, vendo seus talentos minguarem e valerem de muito pouco.

Existe também uma enorme comunhão entre todos eles. Há algo não dito nas entrelinhas, mas que os une. Somente essas pessoas viveram essas circunstâncias nessa casa e somente elas sabem o que isso significa. Isso fica claro pelo simples fato desse livro existir. Fun Home é uma visão, apesar de poética, brutalmente honesta da família. O bom, o ruim e o feio. Tudo está ali, exposto, ferida aberta para ser explorada. E a família deixa, a família compreende esse desejo e deixa Alison escrever o que ela precisa escrever. Esse talvez seja o trunfo final do livro, o fato de que não precisa haver entendimento para haver… bom… entendimento. Okay, isso ficou confuso, mas as vezes você não precisa entender profundamente um ser humano para ser capaz de ter empatia, para de alguma forma internalizar aquilo e criar um laço.

Bechdel nunca compreenderá seu pai verdadeiramente, porque nós somos humanos e só conseguimos viver dentro da nossa própria consciência, da nossa própria percepção das coisas, mas isso não quer dizer que não pode haver ali uma verdade maior subentendida e que nos conecta, nos une como família e como humanos. Como a certeza de saber que haverá um braço pra te pegar quando você pular.