Me mandaram ir pra Cuba… e eu fui! (Parte 1)

Em janeiro de 2017, pós golpe mas pré-apocalipse 2018, eu fiz o que todos os camisas verde e amarela me mandaram fazer e… fui pra Cuba!

Cuba é e não é o que nós imaginamos dela. Ao mesmo tempo em que ela é sim carros dos anos 50 com motores modificados para correr com diesel e soltando a maior fumaça de poluição que eu já respirei na minha vida (e eu moro em São Paulo!), Cuba também é inteligente e bem informada. Mais bem informada até do que eu mesma. Não havia um cubano que não soubesse profundamente sobre a situação política brasileira, que não nos perguntasse questões que as vezes nós nem sabíamos responder. Sim, é difícil conseguir chocolate por lá e toda criança que você encontra te pede uma bala, porque elas são como ouro, mas também ninguém passa fome. Todo mundo tem sua quota básica de comida que pode ser expandida e complementada a partir do seu salário. Sim, as pessoas ressentem o governo mas também sim, as pessoas são gratas ao governo. Cuba é complexa. Para entendê-la tem que viajar por ela, conversar com pessoas normais. E é por isso que quis escrever um pouquinho sobre minha viagem para lá e espero que essa série de textos sirva ao mesmo tempo como Guia de Viagem e também como uma janela para a realidade cubana.

DIAs 1 À 3- HAVANA

A melhor maneira de se hospedar em Cuba é ficar em casas particulares. Pessoas normais que tem um quarto extra sobrando abrem sua casa para visitantes. O governo regulamenta todos esses quartos que precisam ter sempre banheiro, ventilador/ar-condicionado e geladeira. A maioria das casas oferece um café da manhã a parte. Essa é uma boa maneira de se ganhar um dinheiro extra, uma vez que Cuba funciona com duas moedas, uma para os locais e uma outra moeda “gringa” que vale mais.

Nós ficamos em Vedado, em um apartamento só nosso, pois a família dona tinha duas casas – algo super incomum, diga-se de passagem. A maioria das casas particulares são de fato frequentadas pelas famílias e você convive com eles dentro de sua rotina de trabalho. Pode parecer meio estranho, mas não é. Na verdade foi uma experiência incrível poder conversar com essas pessoas, saber como suas vidas funcionam. Aprendemos que eletricidade, telefone, gás, tudo isso é baratíssimo.Tão barato que as pessoas falam no telefone (fixo) o tempo todo. Remédios e atendimento médico são completamente de graça para cidadãos. Tentamos inclusive comprar um xarope e a moça da farmácia não sabia o quanto cobrar, porque nunca teve que vender remédio nenhum. Acabamos pagando 80 centavos porque foi tudo que ela quis aceitar. Tenho altas histórias com o atendimento médico cubano, mas isso fica para o próximo texto.

Ficar em casas particulares também é uma boa oportunidade de perguntar coisas que você sempre quis saber sobre Cuba, como por exemplo como funciona sair do país ou comprar eletrônicos (e pra quem quer saber a resposta, aqui está: o governo tem que autorizar e as pessoas compram eletrônicos fora e mandam para Cuba; ao chegarmos no aeroporto era uma confusão tamanha de geladeiras e televisões) ou como funciona o sistema de alimentação por exemplo. Se você hospeda estrangeiros, seu vale alimentação aumenta. Você por exemplo passa a ter direito a leite de graça. Normalmente leite gratuito só é parte da cesta básica quando se é criança ou quando se está doente.

Tenho mais histórias para contar sobre essas casas particulares, mas nossa primeira estada em Havana não tinha tantas particularidades assim.

Malecón ao por do sol, com vista para o Castillo de los Tres Santos Reyes Magnos del Morro

 

Vedado é um bairro um pouco mais afastado do centro, mas ainda perto do mar e do Malecón (calçadão a beira-mar que se estende por 13km). As vezes nós pegávamos taxis para ir até o centro. Táxi em Cuba é super barato e em sua maioria os taxistas eram amigáveis e ansiosos por dar o máximo de informações possível. O estado de cada carro, porém, variava. Alguns estavam bem conservados, outros tinham seu estofamento rasgado e caindo aos pedaços, ou o chão do carro  tinha um buraco. Existem carros modernos em Cuba, mas eles são caros e normalmente quem os tem os recebem por licença do governo para trabalhos específicos. A maioria dos carros novos são russos. A maioria dos antigos são americanos, eternamente modificados e reformados para permanecerem vivos. Inclusive o mercado de peças para carros é enorme e fascinante. Nós visitamos um em Trinidad… mas essa é uma outra história. De qualquer maneira ainda é muito surpreendente ver carros de 60 anos ainda andando firmões por aí.

Quando não pegávamos táxi, pegávamos ônibus para ir até o centro. O ônibus é gratuito para cidadãos. Estrangeiros tem que pagar… não me lembro exatamente, mas acho que 1,50 na moeda gringa? Não sei, o que eu sei é que na realidade, na realidade, você não precisa pagar. Ninguém te cobra nada e se você paga é porque você quer. É quase como um agradecimento e uma redistribuição de renda. Se você tem dinheiro para pagar, então pague por aqueles que não tem. No final das contas você acaba pagando o que acha justo pela viagem. Por ser tão barato, nós sempre pagamos a tarifa sugerida.

A parte mais bonita de Havana certamente é a Cidade Velha. Várias ruas estreitas e fechadas para carro, com casarões e prédios antigos, daqueles de pé direito altíssimo – essa, aliás, foi uma das coisas que mais amei nas casas cubanas, seus tetos altos e janelas enormes para combater o calor insuportável.

banca de frutas em Habana Viaja

 

Por estar no Caribe, Cuba não tem muito isso de “estações”. Fomos em janeiro, quando teoricamente era inverno, mas pegamos quase sempre entre 25 e 30 graus. Quem vai em julho diz que o calor é tão forte que fica impossível caminhar pelas ruas e é necessário acampar em bares e tomar um Mojito gelado para sobreviver. Não me parece um destino tão ruim assim, provar dos deliciosos drinks cubanos (além do Mojito, clássicos do país incluem a Piña Colada e o Daiquiri, favorito de Hemingway), mas aí fica por decisão sua.

A Habana Vieja como é conhecida se estende da Plaza de La Catedral até a Plaza Vieja. Não darei aqui um guia completo do que fazer em Havana, até porque existem sites por aí que podem fazê-lo muito melhor do que eu. Vou só colocar alguns dos itens imperdíveis.

O primeiro deles é a feirinha que acontece nos finais de semana na Plaza de Armas, em frente ao Castillo de la Real Fuerza. Lá vende-se de tudo, livros, artesanato, arte. Comprei dois livros sobre cinema Cubano pelo equivalente de 5 reais. Eu quase chorei por não ter dinheiro para comprar um poster maravilhoso de um artista local. Acabei comprando um plaquetinha como um poster-propaganda da revolução. Ele está pendurado na minha parede até hoje.

Saindo de lá pegue a Calle Obispo (famoooosa), compre um sorvete de coco maravilhoso que é vendido em pequenos carrinhos ambulantes por aí, e vá andando pelas ruelas ao redor. À esquerda tem a Plaza Vieja e a Plaza San Francisco. Ali é o local para a vida noturna, onde casas de shows mostram danças e música cubana. Durante o dia é bonito, mas não é o melhor. Seguindo a direita da Obispo, pela Calle Mercaderes ou San Ignacio existem várias lojinhas, museus e centros históricos que te levam até a Plaza de la Catedral. Ali do lado tem a ilustre Bodeguita del Médio, um famoso bar na região, frequentado por Salvador Allende, Pablo Neruda e, é claro, Hemingway. Não se estranhe se eu citar Hemigway várias vezes nesse guia. Nós praticamente seguimos um passo a passo de todos os lugares frequentados pelo homem.

A Bodeguita é famosa pelas suas paredes assinadas por todos os visitantes (inclusive eu assinei também! eles fornecem até marcadores pra você) e por seu Mojito que atrai dezenas de pessoas que se acumulam na rua e em filas para provar da bebida. Eu gostei muito, mas sinceramente não foi o melhor Mojito da minha vida. No entanto, eu ainda me apaixonei pela Bodeguita. Pode parecer uma armadilha pra pegar turista, mas não é. O preço é justo, tem quase sempre uma maravilhosa música ao vivo e a comida é tradicional cubana e muito boa – pelo menos eu achei. O prato típico é arroz misturado com feijão preto e banana frita (as vezes também tem um outro tubérculo cujo nome eu esqueci e que é maravilhoso e frito, você pode ver na foto abaixo; nunca vi igual no Brasil). Não conte muito com carnes ou batata no país, eles não são muito bons. Foque nos frutos do mar, especialmente lagostas, lagostins e polvo.  Havana é provavelmente o lugar onde você vai comer melhor e com mais variedade na ilha. O resto fica mesmo a base do feijão com arroz e banana verde frita. Ah, e não conte muito também com sobremesas. Doces são difíceis de encontrar na ilha. O melhor mesmo é o sorvete de coco vendido na rua. Eu achei tudo uma delícia, mas alguns dos meus companheiros de viagem ficaram meio de saco cheio e reclamaram bastante da comida. Enfim, cada um cada um…

 

Entre os bares famosos da cidade está também a Floridita, outro lugar frequentado por Hemingway e também responsável pela criação do Daiquiri. A qualidade do Daiquiri em Cuba varia muito, vai do péssimo ao excelente. O da Floridita é excelente, como não poderia deixar de ser. Infelizmente o espaço é pequeno e ao contrário da Bodeguita, não se pode ficar na rua com seus drinks. Me apertei lá dentro e consegui pegar um drink e tirar uma foto com esse ícone bem controverso e problemático 😉

 

 

Floridita fica já quase fora da Cidade Velha e próximo ao Parque Central. Essa já é outra área da cidade. Para a direita fica o Capitólio Nacional, a Fábrica de Tabaco Partagás (que fabrica charutos ainda, mas a fábrica em si é na verdade uma grande loja pega turista, para visitar fábricas de charuto de verdade é preciso sair de Havana e seguir para o norte da ilha). Para essa direção também ficam outras atrações não centrais, como por exemplo a Plaza de la Revolución, com os prédios icônicos com a imagem de Che Guevara e Fidel Castro. Não tem nada de demais para se ver lá, mas vale a foto clássica. Tem também o parques Quinta de Los Molinos e Castillo del Principe. Não visitei nenhum dos dois, mas fica a dica mesmo assim.

 

pedaço do Grande teatro de la Habana e do Hotel Inglaterra, que não parece nada por fora, mas por dentro tem decoração moura maravilhosa. Vale a pena entrar para um café
Gran Teatro de la Habana e os carros antigos em frente ao Parque Central e próximo a Floridita

 

À esquerda da Plaza Central fica a minha parte favorita de qualquer novo lugar: o bairro dos museus. Havana tem um museu a cada esquina, mas aqui ficam os maiores, entre eles o maravilhoso Museu de la Reviolución, uma aula de história completa sobre a Cuba antes e depois de Fidel Castro, além do Museu Nacional de Bellas Artes, que conta com arte cubana de várias eras, mas com destaque especial para o moderno e contemporâneo. É sempre bom lembrar o quão importante e influente a arte cubana é, seja a arte que nasceu na ilha ou a arte de exilados que tiveram que fugir da perseguição politica mas criaram obras maravilhosas sobre a realidade cubana. Nas artes plásticas, na música ou no cinema, Cuba foi e é um enorme centro de criação.

Ao redor dos Museus também é o melhor lugar para se comer na cidade. Os restaurantes são igualmente turísticos e “caros” (nada absurdo, mas bem acima da média geral da ilha), mas de melhor qualidade do que na Cidade Velha. Saindo de lá você pode voltar para o Malecón seguindo o grande calçadão Paseo de Martí ou Paseo del Prado. O Malecón é uma área verdadeiramente frequentada pelos locais. Apesar de a Cidade Velha ainda ter regiões não turísticas e habitadas pelos locais, fica a impressão de que tirando uma banca de fruta ou outra, a maioria das lojas ali não são para cubanos. O Malecón já não, você vê a moçada se reunindo no fim da tarde, jogando bola, pescando, namorando, tocando música. Foi um dos lugares mais bonitos e cheios de vida que eu já vi em qualquer lugar do mundo.

Farol no Castillo del Morro

Do outro lado da Bahía de Havana fica uma área militar chamada Fortaleza de San Carlos de la Cabaña, com o farol e o Castillo de los Tres Santos Reyes Magnos del Morro. Vale a visita. Nós fomos de transporte público e nos perdemos um pouco por ali. Recomendo um taxi que te deixe já no local, já que entre uma coisa e outra você vai ter que andar bastante e cruzar rodovias e etc.

Também do outro lado fica uma cidadezinha vizinha chamada Regla. Ela é famosa por sua igreja da Nossa Senhora da Caridade do Cobre, padroeira de Cuba. Apesar da imagem da virgem não morar ali, esse ainda é um centro de peregrinação. Nós fomos visitar, é claro. Parcialmente pela santa, mas também parcialmente porque queríamos pegar a balsa que levava até lá.

Próximo a Havana também fica outro lugar da nossa peregrinação Hemingway: Cojimar, uma vilazinha de pescadores que inspirou o escritor em seu livro O Velho e o Mar. Cojimar também tem um famoso restaurante La Terraza de Cojimar. Sinceramente, nenhuma das coisas vale muito a pena. O restaurante não é tão bom e a vilazinha hoje já não conta nem mais com pescadores nem com o suposto charme do passado. A menos que vocês queiram MUITO tirar outra foto com outra estátua de Hemingway, esse é um item do roteiro que vocês podem pular tranquilamente.

Por enquanto é isso, pessoal. Voltem semana que vem para ver a parte 2 do meu Guia de Viagem por Cuba, onde eu saio da capital e visito a Bahia dos Porcos, a cidade histórica de Trinidad, fico em um resort em Cayo Coco e finalmente vou para Santa Clara jantar com um homem que lutou na revolução, era amigo de Camilo Cienfuegos e por anos foi chef de cozinha de Fidel Castro. Aguardem!