Para além de Havana

Cuba pode parecer uma ilha pequena, mas tem muito o que se ver no país. Para o leste de Havana existem enormes plantações e é uma área mais “campo” (para quem não curte tanto a praia assim). Se o seu foco são os charutos, até onde eu sei – e admito aqui que na verdade não sei muito – essa é a região das principais plantações de tabaco.

Ao oeste da capital foi onde concentrei a maior parte da minha viagem, porém sem nunca chegar ao extremo sul da ilha em Santiago de Cuba… digamos que eu fiquei mais no centro. Então vamos lá para a aventura!

Dias 4 e 5 – De Havana para Baía dos Porcos

Viajar por Cuba não é exatamente fácil. A primeira opção seria alugar um carro. Porém, como já vimos, carros na ilha são sempre meio estranhos. Os disponíveis para turistas são mais novos e importados, então não tem tanto o perigo de um Ford 1945 quebrar na sua mão e de repente você se ver obrigada a ir caçar peça numa dessas feiras do mercado negro de partes automotivas. No entanto, postos de gasolina, especialmente na estrada, são meio raros (não tão raros assim que eles sejam unicórnios míticos, mas raros o bastante que você precisa se preparar e encher o tanque na cidade antes de sair). Pior do que a situação do diesel, porém, são as estradas. Não as achei emburacadas nem nada, mas elas também quase não tem sinalização. Você está ali por conta própria. Uma curva errada e pronto, está perdido sem saber o que fazer.

Se você for muito do “deixa a vida me levar, vida leva eu”, essa pode ser uma boa opção. Se você, como eu, gosta de saber sua localização a todos os momentos, talvez a pedida seja ir de táxi. Sim, você ouviu direito: TÁXI. Táxis em Cuba são baratos e quase todos eles estão dispostos a fazer viagens de longa distância. Se você estiver em grupo como nós estávamos, a divisão por pessoa entre Havana e a Baía dos Porcos sai coisa entre 20-50 reais cada? Mais caro que o ônibus, mas também muito mais confiável. Os ônibus por lá não tem muito horário. Você pode ter comprado pra sair as 10h e seu ônibus só chega as 14h. Pode ser que não tenham passageiros o bastante e a corrida inteira é cancelada. Sem contar que 99% da população cubana é super amigável e disposta a conversar, então a estrada se torna um momento educativo também, onde o motorista conta a história dos lugares por onde passamos e responde perguntas e etc (foi justamente numa amizade dessa com taxista que fomos parar na tal feira do mercado de peças automotivas… foi bizarro e até agora eu não sei se entendi 100% o que aconteceu e como fomos parar lá).

minha amiga Cleide no táxi rumo a Playa Larga e um dos muitos taxistas maravilhosos que conhecemos na ilha

Nosso objetivo indo para a Baía não era muito o de aproveitar a natureza ao redor (existe uma reserva florestal por perto especializada em criação e preservação de crocodilos, thanks but no thanks) e sim de tomar um sol na praia e, possivelmente, rir um pouco da tentativa frustrada dos americanos invadirem a ilha.

Escolhemos ficar em Playa Larga, uma praia menor e menos popular (e portanto mais barata) do que Playa Girón, para onde iríamos de carro no dia seguinte.

Em Playa Larga ficamos novamente em uma casa de família, mas dessa vez era mais pra uma pousada que se chamava de casa do que qualquer outra coisa. A cidade se constitui basicamente dessas casas à beira-mar na pequena praia e depois, bem distante, o centro onde as pessoas locais moram e fazem suas compras. Os turistas ficam mesmo mais confinados à orla, já que não tem muito o que se ver ou fazer na cidade. Café da manhã, almoço e jantar foram todos fornecidos pela nossa hospedagem, algo que não é comum, mas nesse caso muito necessário. Basicamente tomamos Piña Coladas o dia inteiro e comemos banana frita como se não houvesse amanhã.

Por ser pequena e sem muitas opções, Playa Larga também é bem deserta. Você tem a área em frente à sua casa completamente para você, sem disputas. A vista também é linda. Seria verdadeiramente a minha praia favorita em Cuba, não fosse pelo fato de que o mar é mais escuro (pense sudeste/sul do Brasil) e com algas. A escuridão, sinceramente, tanto faz. Ter águas transparentes é incrível, mas eu trocaria isso pela beleza e privacidade de Playa Larga. O grande porém mesmo foram as algas. Morro de medo de coisas encostando em mim sem eu saber. A cada passo era um grito diferente achando que tinha pisado em algum peixe ou qualquer coisa. Se você for mais corajoso do que eu, vai firme, irmão! Esse é o lugar mais underrated de Cuba e eu recomendo muito.

Nosso “hotel” fez de tudo para nos agradar, chegaram até mesmo a contratar uma banda local para tocar música ao vivo e nós nos divertimos muito. Inclusive conhecemos novas músicas locais, entre elas canções de trabalho de escravos, canções para enrolar charutos e canções cantadas pelos guerrilheiros durante a revolução.

atenção que essa foto não tem photoshop nenhum!

Foi também em Playa Larga que fiquei tremendamente doente. A fumaça dos carros em Havana já havia me feito muito mal e atacado minha alergia. Acho que isso e o vento gelado pós mergulhos no mar (lembrem-se de que teoricamente era inverno, apesar do calor de 28 graus) me deram uma faringite aguda. Estava tremendamente quebrada. Não conseguia mais falar, não tinha voz, tudo doía, minhas férias estavam arruinadas. Acabei indo no postinho de saúde local e, olha, se isso não é a maior propaganda para o sistema de saúde cubano, eu não sei o que é.

Quem me atendeu foi o simpatissíssimo Dr. Lazaro, após apenas 5 minutos de espera. Ele me perguntou sobre meu histórico familiar e doenças passadas. Testou meus reflexos, ouviu minha respiração e coração, olhou meu nariz, ouvido, garganta. Fez todas as coisas que a gente espera de um médico, mas sabe muito bem que nem sempre acontecem. Já fui várias vezes no pronto-socorro em hospitais privados em São Paulo por causa de gripes e tudo o que eles fazem é te perguntar “fez febre” e você responde “não, mas até aí eu nunca faço febre, eu posso estar morrendo e eu não faço febre”, “bom, toma esse remédio aqui. tchau”. Dr. Lazaro não foi assim. A consulta demorou uma meia hora – em parte porque ele continuava me examinando e ouvindo meu coração, e em parte porque ele e minha mãe se deram super bem e ficaram falando sobre hospitais (minha mãe trabalha em um) e o Programa Mais Médicos (Dr. Lazaro nunca veio para o Brasil, mas disse que todos os amigos dele que vieram voltaram absolutamente encantados pelo país… uma pena pensar que pouco mais de um ano e meio depois dessa conversa, todos esses maravilhosos profissionais seriam praticamente expulsos do país). Depois de muito exame e tosse daqui, tosse dali, Dr. Lazaro falou: “Anna, eu gostaria de fazer um ecocardiograma. Você tem uma arritmia no seu coração e isso pode ser sério. Não quero te deixar voltar para a sua viagem sem ter certeza”. Foi aí que DE FATO meu coração pulou umas batidas. Não de medo, mas de carinho por esse médico.

Eu tenho uma condição cardíaca congênita e não grave. Ela se manifesta na forma de arritmias. Eu estou sentada e de repente meu coração começa a bater a 130 por minuto, e depois cai para 50. Nada sério, tudo sob controle, não se preocupem! Eu vou na cardiologista todo ano, tá tudo bem! O que NUNCA na minha vida tinha me acontecido, porém, era médico nenhum fora minha cardio, que me atende há anos, perceber que eu tinha isso. Ele me ouviu com tanto cuidado que reparou o mais mínimos dos detalhes. Eu tinha me esquecido de avisar isso pra ele antes e, mesmo depois de dizer que isso era normal e estava sendo tratado e etc, ele ainda assim estava super preocupado. Foi assim que ele me receitou 10 dias de antibiótico. Era o fim dos meus dias de mojitos e daiquiris e piña coladas, mas, infelizmente, segundo Dr Lazaro era necessário. A Faringite era grave e se não tratada poderia afetar ainda mais meu coração. Eu abracei aquele homem enorme, de pele escura, cabelos brancos mas com cara de quem tem 40 anos, um sorriso enorme e contagiante no rosto e com uma mão duas vezes do tamanho da minha, e segui em frente. A consulta em si foi cobrada – porque somos turistas e não fizemos o passe saúde necessário ao chegar no país. Eles nos deram recibos para reembolso da nossa seguradora, mas acabamos nem fazendo isso, já que a consulta não foi tão cara assim.

Então, doente e cansada e triste porque o resto da minha viagem seria sem álcool, voltei para a praia e aproveitei o pôr-do-Sol mais bonito que vi na vida. Acabei não indo para Playa Girón. Estava contente aqui no meu cantinho e queria me recuperar o bastante para aproveitar a cidade histórica de Trinidad, para onde iriamos (de táxi) no dia seguinte.


Por enquanto é isso, pessoal. Voltem semana que vem para ver a parte 3 do meu Guia de Viagem por Cuba, onde eu choro um pouco porque estou doente demais e quero poder melhorar logo para aproveitar a cidade histórica de Trinidad, e onde eu faço a fina e fico em um resort em Cayo Coco e finalmente vou para Santa Clara jantar com um homem que lutou na revolução, era amigo de Camilo Cienfuegos e por anos foi chef de cozinha de Fidel Castro. Aguardem!