Juliet, Nua e Crua

Não, mudar não é muito fácil. O tempo vai passando, você não se redime de imediato e aí quando vê é mais fácil continuar ali naquele estado de inércia do que sair dele. Esse é o caso de Tucker Crowe, um americano que há 20 anos não faz nada a não ser sentar no sofá e sentir pena de si mesmo. Sua principal atividade atualmente é ser ex-compositor, ex-cantor, ex-artista, ex-pessoa importante e também ex-marido para pelo menos quatro esposas. Se fosse possível ser ex-pai de seus filhos, Tucker também o seria.

Enquanto isso, do outro lado do Atlântico,  Annie adoraria ser ex-alguma coisa. Ser ex-qualquer coisa significa que um dia você chegou a ser algo e isso é o que ela mais gostaria. Vivendo na minúscula e esquecida cidade de Gooleness no litoral norte da Inglaterra com seu namorado insosso de 15 anos – um cara absolutamente viciado em Tucker Crowe, pense nível pessoa que briga em fórum na internet, faz mural de fotos e se auto-denomina “Croweologista” – Annie não sabe o que fazer para escapar dessa rotina. Ela não sabe nem mesmo como ela entrou nessa rotina, muito menos como isso durou 15 anos.

Um dia, cansada de ouvir o marido namorado falar de Tucker Crowe e quão maravilhoso seu álbum Juliet é, Annie entra num fórum de fãs e escreve tudo o que acha sobre esse “artista recluso” que na verdade nem recluso é. Tucker lê a review e finalmente se vê representando. Ele sabe que é um perdedor. Ele sabe que sua música já passou e que ninguém mais deveria estar falando dela 20 anos depois; mas Annie foi a primeira pessoa fora da sua família a dizer isso com tantas palavras. Talvez Tucker deva mandar um email pra ela dizendo justamente isso…

Essa é a premissa de Juliet, Nua e Crua; um novo filme com Rose Byrne (Annie), Ethan Hawke (Tucker) e Chris O’Dowd (o fã/namorado, Duncan) baseado no livro homônimo de Nick Hornby.

Pra quem leu o livro, ou pra quem é fã de Hornby, essa é uma adaptação até que bem fiel. Eu chegaria até mesmo a cometer a semi-heresia de dizer que o filme é melhor do que o livro? Pois é, eu não estou 100% vendida nessa minha fala, mas talvez seja verdade. Parcialmente porque música se traduz muito melhor em filme do que em livro –  e a trilha sonora original é absolutamente imperdível (ouça AQUI), parcialmente porque o elenco consegue ser em partes iguais engraçado, irônico e cheio de emoção, parcialmente porque ver fotos do Ethan Hawke novinho me deixa meio bamba nas pernas… Bom, seja como for, o filme é, no mínimo, igualmente bom ao livro. Ele compreende o espírito do texto e o modifica para melhor.

Se na versão original de Hornby existe uma certa melancolia, uma aura de “tudo está fadado a dar errado” porque seus personagens não mudam ou crescem verdadeiramente, no filme o arco deles parece mais real e esperançoso. No livro Annie é mais frágil, incerta de si mesma, desesperada por qualquer migalha de afeto que apareça no seu caminho, já no filme ela se mostra mais segura e independente – pelo menos no final. Seu crescimento não depende de Tucker… ou Duncan! Não depende de ninguém. A mudança parte dela, o crescimento é dela sozinha e não dela correndo atrás do sonho vazio de um homem e nem mesmo usando um homem vazio como desculpa para correr atrás de seus sonhos.

O mesmo vale para Tucker. No livro, existe uma passagem que diz “todas essas coisas que Tucker havia vivido nos últimos meses, nada disso havia mudado nada. Ele não havia nem aprendido nem crescido”. Talvez seja isso que torne esse trabalho de Hornby tão especial. Seus personagens masculinos são geralmente homens semi-escrotos arrependidos de seu passado ou frustrados com seu presente, que não sabem ter relacionamentos verdadeiros e que, dado o curso do livro, crescem e aprendem sua lição. Pensem em About a boy, pensem em High Fidelity. No entanto, em Juliet, Naked a mudança de Crowe é muito menor, muito mais sutil. Ele não se redime completamente, ele não deixa de ser escroto, ou de mentir, ou de fugir das suas responsabilidades. Ele não confronta seu passado e não aprende nada de demais, mas, mesmo assim, alguma engrenagem começa a se mover, a gente só não vê as consequências disso.

O filme, por outro lado, tenta fazer esse crescimento de personagem ser mais satisfatório através de um enfrentamento aberto entre Tucker e seus filhos e suas falhas como pai ausente. As relações familiares aqui são bem diferentes das originais, mas acho que isso é para melhor. Tornam as coisas mais honestas, mais… NUAS E CRUAS (hehehe, foi mal, não resisti).

A discussão entre arte e vida real também é muito interessante. Tucker, em sua música, cria uma narrativa de artista sofrido, sensível, eternamente de coração partido, quando a realidade é outra. Existe um certo confronto entre arte e artista. Quando Duncan conhece seu ídolo, não há êxtase algum. Não é a catarse que ele esperava. A obra pela qual ele se apaixonou não tem nada a ver com a pessoa por trás, é a boa e velha frustração de “nunca conheça seus ídolos” porque as pessoas nunca serão completamente o que a gente espera delas. Humanos são falhos e sempre vão te decepcionar. No entanto, como Duncan mesmo diz em um discurso lindo e emocionante, isso não invalida a obra, e especialmente não invalida a importância que a obra tem em nossas vidas.

Essa é uma discussão polêmica, mas muito válida. Se um filme (cof cof Hannah e suas irmãs, por exemplo cof cof) mudou a maneira como você percebe o cinema, se esse filme te transformou como pessoa e te afetou profundamente, você vai apagar isso da sua vida só porque o diretor do filme é um babaca? O diretor tem esse poder? De reter a importância da obra pra sempre? Ou a obra pertence aos fãs? Pertence às emoções que ela gera em cada um? Uma certa escritora de fantasia que com certeza não se chama JK Rowling tem o poder de estragar um livro que absolutamente não é Harry Potter ou esse tal livro que com certeza não faz referência à um livro de verdade no mundo real, pertence a mim e é maior do que sua autora devido a dimensão que ele tem na MINHA vida? Em questões públicas o autor ser um escroto pode mudar tudo, mas e em questões pessoais e afetivas, seria o poder transformativo da obra menor do que a escrotidão de seu autor??

Juliet, Nua e Crua não dá uma resposta definitiva a essas questões tão complexas, mas talvez nos mostre que as coisas tem o tamanho do valor que a gente dá para elas. No final das contas o filme como um todo é sobre a importância que nós damos as coisas e os significados que criamos a partir delas. Seja essa coisa um olho de tubarão em formol desde 1964, seja um álbum de um cantor que não publica nada há 20 anos, seja um filho – pois um filho ao qual não se dá importância tem outro significado do que um para quem se está presentes.

No começo do filme e do livro Annie se pergunta por que um esboço de uma obra seria melhor que o produto final que você trabalhou em cima. Eu não diria melhor, mas existe algo mais transparente, mais ferida aberta, pele exposta, bicho sem sua carapaça. Enfim, resumindo… algo mais honesto e verdadeiro nisso. Você não tem a chance de maquiar, modificar, manipular. Você apenas sente o que sente e mostra o que mostra. Essa é Juliet, Nua e Crua para mim. Uma visão do seu ídolo sem maquiagem, sem a lente da fama e do afastamento. É a visão da arte e da pessoa por trás e como uma afeta ou não a outraÉ a visão de 15 ou 20 anos perdidos em relações destrutivas e o que fazemos com o resto das nossas vidas agora. Talvez não haja reparação, mas e aí? O que fazer? Mudar não é fácil, especialmente quando vimos o feio e ruim de nós mesmo expostos no mundo, quase como uma carcaça de tubarão se decompondo na praia, mas também nunca é tarde. E, pelo menos no filme, ainda há esperanças para todos nós.