Kids in Love

— A gente só se conhece há uma semana!

Demorou uma semana pra eu saber que queria ficar com ela, mas demorou só dois segundos pra ela responder “De jeito nenhum”. Quando se tem recém-feitos dezoito anos e se apaixona pela primeira vez, uma resposta dessas pode acabar com o mínimo de auto-estima que é possível ter nessa idade.

Eu era feito de impulsos e descobriria mais tarde que as paixões fervorosas faziam parte de mim — e o desinteresse rápido quando não correspondidas, também. Diane gostava de saber exatamente aonde estava pisando e analisar bem se era algo que queria se jogar de cabeça. A gente vivia praticamente em dois fuso horários diferentes, e a probabilidade de eu já estar em outra quando ela resolvesse mergulhar nisso era muito grande, mas por algum motivo, quando ela pediu pra ter calma, eu a ouvi e as coisas fluíram.

Nossa amizade era forte, mas também estava muito claro que não era só isso, era romance também. E por algum motivo estranho, não chamar aquilo de um relacionamento trazia uma espontaneidade em Diane que rótulo nenhum poderia trazer. A gente não tinha um trato selado sobre como as coisas funcionariam, ou quais regras deveriam ser seguidas, mas eu já tinha sacado Diane. O padeiro do lado de casa tinha sacado Diane. Só ela que não tinha sacado.

Nós já fazíamos parte da rotina um do outro: de manhã descíamos as ramblas da cidade em direção à praia. Quando o porteiro babaca do prédio estava de folga, o melhor amigo dela chamava pra piscina do condomínio. Às vezes saíamos com meus amigos à noite. Às vezes saímos pra comer alguma coisa com os amigos dela. Minha mãe já tinha dado um apelido pra Diane. O irmão dela já arriscava piadas internas comigo. Fomos a museus e às vezes, enquanto ela observava um quadro, eu observava ela. E também o contrário, mas eu fingia que não percebia. Em algum momento eu entendi que pra continuar se despindo das suas armaduras, eu tinha que fingir que aquilo não era grande coisa. A pressão a fazia se cobrir inteira.

Foi em um final de semana que passei fora com meus amigos que senti a necessidade de falar. A noite quente e alguns copos de qualquer coisa com vodka me fizeram sacar o celular e discar seu número.

¡Hola chico!

— Diane, eu te amo.

— Que? Não consigo te ouv-crrrr! — a voz falhou com o sinal cagado da ligação.

— Eu te a-ccrrrrr!

A ligação caiu. O medo de ser o primeiro a dizer me fez guardar o celular e esperar voltar pra cidade.


 —  Nossa, o que você disse aquele dia que me ligou? Eu não entendi nada! — Diane retomava o assunto enquanto comíamos tapas numa quarta à noite. Ela já tinha perguntado e eu já tinha dito que não era nada.

 —  Não era nada! Eu te disse. O Èric tava dando PT e eu estava bêbado.

 —  Caramba…  —  ela respondeu a mesma coisa, mas parecia contrariada. Enfiou uma batata brava e me observou beber a sangria como se estivesse esperando o resto.

 —  E como foi seu feriado?

— Foi ótimo! Minha melhor amiga veio pra cá. Uma pena vocês não terem se conhecido. Levei ela na La Pedrera, no Parc Güell, ela amou tudo…

A conversa finalmente tomou rumo e em questão de segundos estávamos contando alguma piada idiota para provocar o outro. Depois seguimos para o aniversário do melhor amigo dela (aquele da piscina). Todos os amigos dele estavam lá — portanto, todos os amigos de Diane estavam lá. A minha sorte é que conseguia socializar em qualquer situação, então em segundos estava enroscado no meio da galera jogando Twister e, mais tarde, já bêbado, desengonçado e com uma auto-confiança intacta, disputava passos no Just Dance com Raphael.

 —  Vou no banheiro  — disse pra Diane quando terminei mais um round do jogo de dança.

Girei a maçaneta, mas estava trancado. Ouvi um “tem gente!” do outro lado da porta, então me encostei na parede e fechei os olhos, sentindo a cabeça girar na mesma hora. Respirei fundo, ouvindo a música já abafada ali no corredor. É, acho que bebi demais.

 —  Eu também.  — Ouvi sua voz próxima demais do meu ouvido. Abri os olhos. Ela já tinha se entrelaçado no meu pescoço. Estava bêbado, mas não o suficiente pra deixar de me entrelaçar nela também.

Não precisava perguntar se ela lembrava. Aquilo já tinha se encaixado perfeitamente na minha cabeça. Então só abri um sorriso, com os olhos pequenos do álcool, e comecei a rir.

 —  Eu consigo me ver nos seus olhos.

 —  Eu consigo te ver na minha cama.

E poderia ser um momento extremamente sensual se a gente não conseguisse se levar a sério. A gargalhada veio, mútua, e no meio dela, nosso primeiro beijo de verdade. Eu te amo, Diane. Mas não precisava mais falar – ela sabia. Eu também.

 

 

 

Kids in Love faz parte da série de ficção (des)encontros criada por Fernanda Rentz. Vocês podem ler o primeiro texto no Medium e acompanhar aqui no Allora as próximas publicações.