Lars Von Trier quer que você o odeie

Em 2011 Lars Von Trier foi oficialmente banido de Cannes após dizer que entendia e simpatizava com Hitler. Esse ano ele voltou para o festival com um filme que se propõe a ser o pior, mais terrível, nojento, polêmico e absurdo filme de todos os tempos.

Assim entramos n’A Casa Que Jack Construiu.  Um filme planejado para fazer seu diretor parecer fascista, machista e auto-congrulatório, onde os “haters” do diretor usariam todos esses fatores para mostrar o quando Von Trier é de fato tão desagradável quanto acreditamos. Aaaah, mas os seres de intelecto superior, que vem o diretor pelo gênio que ele realmente é, aaah essas criaturas míticas sim seriam capaz de enxergar a graça por traz. Somente os mais elevados mentalmente seriam capazes de perceber o quanto ele estava invertendo a critica que fizeram a ele e tornando isso arte. Haha. Pobres de nós, floquinhos de neve politicamente corretos, que não conseguimos entender a piada…

Esse filme foi claramente criado para ser uma resposta à Cannes 2011.Lars pega sua figura de persona non grata e a eleva a décima potência. Ele abraça seu papel como homem terrível e faz um filme que em todos os momentos tenta justificar opiniões e atitudes injustificáveis através da desculpa de que na arte tudo se pode, tudo é livre.

A Casa Que Jack Construiu conta a história de Jack, um serial killer apaixonado por arquitetura e cujos maiores idolos são – para enorme surpresa de ninguém – todos nazistas. O filme é narrado pelo personagem principal em uma conversa com Virgilio (sim, esse mesmo, de Dante Alighieri). Essa estrutura narrativa parece quase transplantada diretamente de Ninfomaníaca. Tudo se constrói a partir da narração, que rememora em flashback pequenos momentos fora de ordem e altamente manipulados pela própria memória pessoal de quem nos conta a história. O filme inteiro na verdade parece um requentado de outros filmes do diretor. A narração e estrutura básica de roteiro vem de Ninfomaníaca, o elemento gore e violento vem de Anti-Cristo e o lado de realismo mágico permanece como um resquício dos tempos áureos do diretor.

O filme tem 2h30 que são sentidas a cada minuto. Não porque o gore seja demais – algumas pessoas saíram da exibição em Cannes ao ver cenas como os seios de uma mulher serem cortador e colocados no pára-brisa de um carro – porque ele pode parecer extremo para alguns, mas nada tão longe do que já vimos em filmes B de terror; mas porque o filme parece desconexo e meio cheio de si. Jack se acha especialmente talentoso e meticuloso, quando na verdade ele não é nada disso. Acompanhar seu egocentrismo e arrogância é cansativo. Já a desconexão do filme vem de uma direção que não está interessada em contar uma história ou explorar um personagem, mas sim mandar uma mensagem (leia-se “um foda-se”) para o público. No final das contas, a narração-tese de Jack é longa demais e não avança a história em quase nada e só serve para vangloriar seus feitos mais cruéis, mesquinhos, errôneos e medíocres. A presença de Virgilio como uma possível “voz da razão” também chega a ser quase desnecessária, uma vez que nem personagem nem filme em si ouvem ou dão abertura para questionamentos.

Por fim, o filme parece cansado. Como disse antes, ele não é original, mas sim uma mistura de coisas que Von Trier já fez antes… e muito recentemente! As partes mais interessantes e com maior frescor são as de edição acelerada com trilha de Fame de David Bowie. Se o filme fosse mais disso, ele pareceria mais relevante. Mostrar os atos cruéis de um seria killer, e fazê-lo parecer descolado e moderno com seu ar Bob Dylan em Subterranean Homesick Blues, e não dar respostas prontas para o público, mas fazê-lo chegar à conclusão do machismo, barbárie e loucura do personagem principal por conta própria seria muito mais interessante.

Talvez o momento mais emblemático de quão desgastado esse filme é seja o fato de que tem em mãos a possibilidade de um final aberto que seria magnífico, mas ele resolve ao contrário te dar uma resposta. Te enfiar goela abaixo aquilo que o diretor vê como verdade. Afinal, quem é você para pensar por conta própria e escolher o próprio final em um filme que é inteiro tese e argumento – sem escapatória, sem oposição, sem questionamento – da visão de mundo de seu diretor?

Jack vê sua crueldade e violência como uma inspiração divina. A destruição, mutilação e o gore como um todo são parte do processo criativo. Como se fosse impossível criar uma obra de arte verdadeira sem que antes fosse preciso torturar alguns animais. A medida que vamos ouvindo Jack defender sua barbárie em nome da arte, e usar falas associadas a Mussolini como justificativas para tal, fica impossível não vermos a voz de Jack como sendo a voz de Lars. Personagem e diretor se tornam um, especialmente quando Von Trier utiliza cenas de seus filmes passados para acompanhar certos trechos da narração.

Lars Von Trier quer que você o odeie. Na coletiva de imprensa de Cannes ele mesmo diz  que “É importante não ser amado por todos, porque se você for, então você falhou. Eu não estou certo de que as pessoas odeiam esse filme o bastante. (…) Eu sei um pouco sobre psicopatas. Eu nunca matei ninguém eu mesmo, mas eu sei bastante sobre psicopatas. Se algum dia eu matar alguém, provavelmente será um jornalista”.

Ele faz de tudo para ser odiado. Ele absolutamente adora ser o vilão, o mal compreendido, o estranho rejeitado pelo mainstream. Seus seguidores pombos engolem isso, falando “haha viu? vocês foram todos enganados!”. Como se no fundo ele não fosse nada disso e estivesse fazendo o papel de advogado do diabo puramente para ser anti-estabelecimento e… hmmm… livre das “convenções” de uma sociedade burguesa?

Mas no final do dia a questão é a seguinte: você é aquilo que você projeta no mundo.  Talvez exista um mundo interno na cabeça de Lars que seja realmente interessante e valha a pena explorar, mas isso não importa. Se tudo que você compartilha com os outros é problemático, então você é problemático. Quem acha que é cool se fingir de babaca, acaba se tornando babaca de verdade. Não importa se teoricamente isso era de mentirinha só pra causar choque. Se você fingiu ser ou se você é de fato, o resultado final é o mesmo. Problemático é quem problemático faz/fala.