Levisky com T: de volta à Ucrânia

Entrevista com o senhor Emmanuel Levisky

Dia 5 de junho de 1995

Entrevistadora Marina Gryts

Fita Um 

Lado A

M: Seu nome por favor.

E: Meu nome é Emmanuel Levitsky.

M: Como se escreve, seu Emmanuel?

E: Meu nome real como era na Rússia, mas como aqui não tem letra Tse* ficou Levisky, 
então só é Emmanuel Levisky.

M: Muito bom! O senhor nasceu onde?

E: Eu nasci em Odessa, Ucrânia, Rússia. Eu nasci em 28 de Julho de 1908.

 

Meu bisavô nunca voltou pra Ucrânia depois de ter saído de lá ainda criança. Meu avô cresceu ouvindo histórias da infância do pai, e sempre teve curiosidade em visitar o país de onde ele veio. Esse ano, depois de muita antecipação e planejamento, fomos. E 110 anos depois lá estávamos nós, no dia 28 de Julho de 2018, meu avô e eu, lado a lado em um campo de girassóis em Odessa.

Essa viagem foi sempre um sonho pra mim, desde a adolescência, uma situação utópica. Eu, na Ucrânia? Muito longe, passagem cara. Meu avô, ir comigo? Ele com mais de 80 anos, há 40 sem fazer uma viagem dessas. Impossível.

Aconteceu que eu me mudei pro outro lado do mundo, o que me deixou bem mais perto de Odessa. Com a distância de casa, os obstáculos se tornaram abstratos e a vontade cresceu. Em Outubro do ano passado fui pro Brasil fazer uma visita e sugeri o plano da viagem como quem não quer nada, só pra plantar uma sementinha na cabeça do meu avô. Em Abril as passagens estavam marcadas. Quem diria!

Busquei meu avô no aeroporto e chegando no apartamento de um amigo onde ficamos hospedados, ele ainda não conseguia acreditar que a gente realmente estava na terra do pai dele. Passeamos na rua no dia seguinte e tudo pareceu tão familiar. Como é possível que em um lugar onde nem mesmo o alfabeto é o mesmo que o nosso, ao redor letreiros irreconhecíveis, a atmosfera reafirmasse constantemente que estávamos em casa?

O espaço fantasioso do nosso imaginário afetivo se tornou concreto diante dos nossos olhos, e o choque com a realidade só fez com que esse ambiente de sonho parecesse mais íntimo ainda a nós mesmos do que qualquer expectativa que pudesse ter sido construída até então.

 

M: Então me conta um pouquinho como era Odessa.

E: Como? 

M: Era Odessa.

E: Como era Odessa (risos) a gente morava em Katerynyns'ka Ploschad’ quer dizer 
Praça da Imperatriz Catarina, Catarina A Grande, Catarina Segunda. Etot Ploschad’... 
Essa praça - comecei falar em Russo - essa praça é praticamente no centro da cidade, 
a rua principal era uma distância de apenas um quarteirão, era como se fosse aqui a
Avenida São João antigamente. 
A gente morava em um prédio naquele tempo de quatro cinco andares, porque não existia 
elevador. Então o prédio mais alto como agora na Europa tem prédio de cinco andares 
só com escadaria. O que eu lembro é que o número do prédio era cinco.

M: Que bonito!

E: Essa praça ficava perto do bulevar que dava e tinha vista para o mar, 
aliás nesse bulevar a calçada já era asfalto enquanto que outras ruas eram não 
asfaltadas mas tinham tacos de madeira porque nas ruas centrais mais finas, 
tinha bonde mas era bonde de cavalo. Então para evitar essas pancadas fortes 
era tudo feito com tacos de madeira especialmente preparados. Quer dizer, essas 
batidas não afetavam, não faziam barulho. Ah! Bom nesse bulevar que eu falei agora, 
não lembro o nome dele, lá tinha a famosa escadaria larga que descia para o porto, 
que essa escadaria aparece no famoso filme Potyomkin, Encouraçado Potyomkin, porque 
em 1905 houve revolta da esquadra russa do Mar Negro, então essa escadaria 
aparece nesse filme.

 

Não foi difícil encontrar o prédio. Meu bisavô, em 1995 com 86 anos, lembrava até do número da rua! Um dos apartamentos estava à venda, subimos até lá. Não sabemos em que apartamento nossa família morou. E com certeza tudo estava muito mudado. Mas subir no prédio, olhar a vista da janela, foi o mais próximo que chegamos a uma viagem no tempo. Passamos por ali todos os dias. A caminhada era agradável, e tornar essa praça parte do nosso cotidiano pareceu algo natural, não precisou ser dito.

Repetimos os trajetos mencionados pelo meu bisavô e as ruas faziam sentido. As pessoas que cruzaram nosso caminho poderiam muito bem se passar por conhecidos, as esquinas sempre revelavam surpresas mas sem perder seu ar trivial, como se tivéssemos andado por ali inúmeras vezes.

 

 

Os dez dias que passamos em Odessa valeram por uma vida toda. Mas saí de lá com uma certeza dentro de mim de que retorno muito em breve. Meu avô voltou a ser criança – andou de bicicleta, tomou sorvete duas vezes ao dia, teve que me aturar toda manhã lembrando ele de tomar os remédios. Os bom dias, boa noites, obrigados e por favores fluíram em russo e ficamos craques em pedir nossos pratos favoritos nos restaurantes.

 

M: Então conta, como era assim de repente o senhor viu uma banana, o senhor já tinha 
visto uma banana na Rússia?

E: Já, e até abacaxi.

M: Até abacaxi?

E: Lá em Odessa tinha banana porque Odessa tinha muito contato com Grécia, com 
Bulgária, e com Turquia, com o Sul, então vinha muita fruta do Sul.

M: Mas tinha assim algum coisa aqui no Brasil que de repente chamou sua atenção?

E: A manga, eu não conhecia. Agora abacaxi eu conheci na Alemanha.
A gente tomava sorvete na sorveteria então vinha rodelas de abacaxi no pires 
em volta da taça de sorvete.

M: (risadas) o gosto é bom né!

E: Há muita coisa que... Agora, tem manga, tem jabuticaba, tem outras 
coisas que não conhecia.

 

E foi assim que a gente conheceu e reconheceu traços em nós mesmos que vieram de antes – gostos, medos e vontades, hábitos tão intrínsecos que passaram despercebidos por muito tempo e que de repente ganharam um novo sentido, um certo valor, um peso maior.

Agora esse ambiente idealizado virou parte da nossa lembrança e o passado passou a andar ao nosso lado de bom grado, sem mais flutuar em torno de nós como uma espécie de presságio.