LIFE GOES ON

Preferia que tivesse vindo em ondas. Quando as coisas começam lentamente e vão evoluindo, dá tempo da ficha cair e, quando acaba, entender que foi melhor assim. Dói menos, passa mais rápido. Mas não foi assim que aconteceu com a gente.

Estávamos no topo do prédio que visitávamos sempre. O sol começava a mostrar os primeiros indícios de desaparecer no céu e eu estava encostada em um dos muros, protegidos com uma tela, impedindo que alguém pudesse se jogar de lá de cima. A brisa que batia refrescava o clima quente de fim de verão, os turistas começavam a descer aos poucos. Ele apareceu do meu lado e sorrimos um para o outro. Caramba, como eu gostava desse cara.

 —  Você falou com seu pai de novo?

 — Diane, eu não quero brigar. Mesmo.  —  ele parecia muito empenhado em não começar uma discussão.

 —  Caramba! Parece que você nem quer ir. —  eu, nem tanto.

 —  Que que cê tá falando? Claro que eu quero!

 —  Se você quisesse mesmo, daria um jeito.

 —  Diane, eu não tenho dinheiro. Nem minha mãe. Ele já disse que não vai me dar nada pra ir pra lá. Não consegui nenhum trabalho. Não tem mais o que fazer.

 —  Eu já disse que posso emprestar!

 —  E você vai tirar esse dinheiro de onde?

A conversa sempre acabava assim, porque ele sabia que seria o dinheiro dos meus pais, e ele já tinha dito que não queria isso. Meus pais não eram ricos, mas tinham mais dinheiro que a mãe dele, que já tinha explicado que se tivesse algo, pagaria pra ele ir. Já seu pai… Esse era outra história.

Era nossa quarta discussão em uma semana e meia. Enquanto alguns me falavam pra tentar ser compreensiva, outros me enchiam a cabeça afirmando “Se ele gostasse mesmo, daria um jeito”. E por mais que ali, parado à minha frente, me olhando daquele jeito, eu tivesse certeza absoluta que gostava sim (e gostava muito), eu já não sabia mais se era verdade. Se era de verdade.

Mesmo maravilhosa, a comida do Taller de Tapas não conseguiu melhorar nosso clima, mais por minha causa do que pela dele. Era inconcebível a idéia de aquilo estar realmente acontecendo, e não era por falta de dinheiro. O pai dele era um escroto, e por mais que tivesse dinheiro pra caralho, não pagaria pro filho ir atrás dos próprios sonhos em outro país. Era longe demais para conseguir controlá-lo.

Nem os montaditos de jamón conseguiram melhorar as coisas. Quando me deixou na porta de casa ele me abraçou mais demorado do que nas outras noites.

 —  O que tá acontecendo?

 —  Nada.

E pela primeira vez eu acreditei que, mesmo se perguntasse de novo, ele não me falaria. Nos despedimos. Ele não avisou que chegou em casa, nem mandou mensagem pela manhã. Eu já sabia que estaria na casa do pai à tarde, então não quis causar desconforto. À noite ele me ligou, e com uma voz tremida e algumas lágrimas no final da ligação, foi assim que terminamos o verão.


Tinha acabado de chegar em casa depois de um longo dia de ensaios quando a notificação pulou na tela. Era ele, me adicionando no facebook, o que indicava na verdade que ele tinha me desbloqueado. O coração disparou na mesma hora e sem pensar duas vezes, aceitei o convite de amizade. Também não pensei muito quando escrevi “Eaí, quanto tempo!”, como se fossemos amigos antigos de colégio.

“Oi! Tudo bom?”

“Tudo sim, e com você?”

“Também”

Encarava a tela e pensava em tudo o que podia escrever. Na verdade, ele merecia ler umas poucas e boas. Tinha passado o último ano me perguntando o que é que tinha que fazer para que pudéssemos voltar a nos falar de novo. O que eu podia, já tinha feito: mandando dezenas de mensagens em cada rede social, até ele me bloquear em todas elas. Antes ele dizia “desculpa, é melhor assim”. Outra vez inventou que tinha se apaixonado por outra pessoa e por isso terminou comigo, até usou Èric para colaborar com a mentira. Não fosse Matias, o melhor amigo dele que virou um dos meus melhores amigos também, teria acreditado nisso de verdade. Passado alguns meses eu já tinha me acostumado com a possibilidade de nunca mais nos falarmos e de ser repelida como o próprio Voldemort. Fazia um pouco mais de um ano e doía, mas era uma dor que eu nem sabia mais como viver sem. Até agora.


“Oi pq você ñ ta aki”

“Q?”

“Kd vc”

“Vc tá bêbada?”

“Ss e vc?”

“1 poco”

“Vem pra k então”

“kkkkkkkkkkkk queria”

“Sdds de vc”

“tbm : ( ”

Tinha uma chamada perdida quando vi o celular de manhã. Minha cabeça martelava loucamente e eu jurei nunca mais beber como na noite anterior. Quando desbloqueei o celular, vi que se tratava dele. E aí, pela primeira vez sóbria, li as mensagens que trocamos e senti muita, muita vergonha de mim mesma.

Nos falamos à tarde. A conversa foi breve: “Oi, ainda gosto de você” “Oi, eu também”. Mas, pela primeira vez consciente, concluí que não funcionava desse jeito — não com um oceano entre nós. Em um ano, eu tinha aprendido amar viver tão longe do lugar que eu chamava de lar. Em um ano, ele agora fazia planos para Hong Kong. E o romance que vivemos no verão passado, fácil, simples, já não se encaixava mais nos nossos planos.


Tuuuuu.

Tuuuuu.

Tuuuuu.

 —  Caramba, finalmente!

 — Foi mal, eu tava jantando  —  ele virou um último gole da coca-cola que bebia e se debruçou em frente à câmera.  —  E aí, Diane! Qual a nova?

 —  Tá pronto?!  —  Tentei fazer um mistério, mas era ansiosa demais pra isso. Assim que ele perguntou de novo, levantei a passagem de avião em frente a câmera.  — Eu vou passar o verão aí!!!

 —  Que demais!  — ele parecia genuinamente animado.  —  Vem sozinha?

 —  Sim. Terminei meu namoro.  —  E pela primeira vez não era difícil falar isso.

 —  Que bom. Não queria conhecer aquele cara.  — ele riu sozinho e satisfeito.  —  Você vai poder conhecer a Alice. Nos conhecemos faz um mês mas eu acho que é ela, sabe?

 —  Meu deus do céu, eu tinha esquecido que você podia ser brega.

Minha barriga roncou, mas não era de fome como expliquei quando ele riu de mim. Era de ansiedade. Depois de tanto tempo em um relacionamento complicado, quando me senti livre pra me imaginar com outras pessoas, ele foi a primeira delas. A sombra de um verão perfeito sempre me perseguia quando estava solteira, me enchendo de perguntas como “E se estivéssemos juntos hoje?”. Tudo com ele sempre parecia incontestavelmente melhor do que qualquer outro relacionamento. Mas no final, a vida seguia — e eu sabia que estaríamos sempre lá um para o outro.

Assim como quando cheguei na cidade caliente naquele verão e ele e Alice me esperavam no aeroporto. Uma pena ele ter errado  —  apesar de incrível, não era ela.

 

 

Life goes on faz parte da série de ficção (des)encontros criada por Fernanda Rentz. Vocês podem ler o texto anterior AQUI e acompanhar no Allora as próximas publicações toda quarta-feira.