Montevidéu: uma trilha sonora 2/4

Os sentimentos que envolvem Montevidéu poderiam ser descritos como um misto entre empolgação, alegria, curiosidade e uma enorme frustração. A cada dia acordando ali eu imaginava como seria minha vida – ou melhor, um cotidiano – morando no Uruguai. Ir trabalhar de bicicleta, não encarar trânsito, ser bem tratada em quase todos os lugares. Poder fumar um baseado na rua sem ser julgada. Sentar nos gramados à beira rio, tomar um mate e escutar JORJA SMITH. Sim, eu comecei o sábado trocando de roupa ao som de Teenage Fantasy, cantarolando enquanto cogitava sobre qual casaco usar. O sol explodia no céu, mas a cidade era tomada por ventos gelados que criavam um frizz desnecessário no meu cabelo. A segunda música dessa mulher maravilhosa começou a tocar quando cheguei na calçada. BLUE LIGHTS, versão live. Eu amo essa música, sei lá porque. Saí cantarolando e andando, destino traçado: caminhar por dois bairros que ainda não conhecia. Punta Carretas e Pocitos.

Peguei um ônibus até o Shopping de Punta Carretas. Eu não estava interessada em caminhar por corredores padrões de um antro consumista (e muito caro), queria apenas um ponto de desembarque fácil. Pois bem, ali me encontro encarando a enorme estrutura do shopping, com uma arquitetura externa maravilhosa. E na curiosidade mandei um google e descobri que o prédio era um antigo presídio inaugurado em 1910. Se tornou shopping em 1994, depois de uma grande reforma. Ok, not bad. Mas não era minha intenção, então aproveitei o maps aberto e encontrei a avenida principal do bairro. Senti saudades de escutar Kendric Lamar e dei play no DAWN, seguindo por diversos quarteirões. Quando a música vira a trilha sonora do momento eu me afundo em uma performance de lip sync enquanto ando, ignorando completamente o fato de existirem pessoas ao meu redor. Em algum ponto da caminhada eu parei em frente a vitrine de uma loja fechada pra arrumar o casaco e comecei a encarar meu reflexo tentando seguir o ritmo de FEEL. com os lábios, mas meu talento é limitado.

O bairro (Punta Carretas) é bem moderninho, tem umas casas e prédios com um ar anos 60/70 que ainda se mistura com alguns toques da arquitetura francesa do centro. Achei agradável e andei até meus pés pedirem arrego e a água da garrafa acabar. Isso mesmo crianças, hidratação é importante. Circulei por alguns minutos a procura de um lugar para almoçar e por fim me sentei em um restaurante descoladinho. Siiiim, todo dia batata, bifão e refrigerante de pomelo. E claro, um café ruim e uma conta cara. Paguei os 50 conto quase chorando e fui pro ponto de ônibus. Precisava de música digestiva: nada muito forte, mas não tão calmo. Padmé, the Ogoin.

A ansiedade me corroía conforme o busun velho percorria pelas ruas ainda desconhecidas. Seguiam comigo SZA, BROCKHAMPTON E FRANK OCEAN no foninho. Aparentemente a cidade possui um velho hábito de transformar presídios em espaços produtivos. Eu seguia desejando pisar no Contemporary Art Space desde que criei meu “roteiro sem roteiro”.

Cheguei na entrada e recebi um livreto, percebendo diversas referências de uma vez só. Fiquei surpresa pela estrutura, pelas obras, pela capacidade de transmutação do espaço. Celas eram salas ou telas em branco. Janelas angustiantes rodeadas de potencial criativo. Eu quase chorei de emoção, sério. Não porque eu amo arte ou qualquer merda do tipo (eu amo arte), mas a sensação, o sentimento do ambiente provocava um treco no coração <3. Toda vez que pisava em uma cela/obra eu arrepiava, as vezes ria, as vezes fincava o pé em frente a qualquer quadro enigmático. Obras interativas dominavam a exposição. No andar abaixo, as obras eram resultado de uma residência artística realizada anteriormente e contava com duas artistas brasileiras. Um falava sobre o uso da cannabis (da planta inteira e não apenas da flor) e a outra sobre as manifestações de 2013 no Brasil. 

O espaço externo ainda estava em reforma e algumas partes foram mantidas como resquícios do cárcere, sendo o próprio ambiente uma obra. No pátio aberto diversos turistas tiravam fotos e me afastei por um tempo, como se sentisse ciúmes daquele lugar. Foi bizarro, porque dentro de mim eu queria aquele local apenas para minha apreciação, mas em um sábado pedir por isso é impossível. Me limitei a tirar duas fotos e depois parti para a rua, me perdendo no caminho por um parque infantil, e auxiliada por um guardinha brasileiro (ele parecia o Stan Lee, juro), encontrei o ponto de ônibus. Dentro de mim jorrava um misto de tantos sentimentos que só estariam completos com CUDI MONTAGE- KIDS SEE GHOSTS.

Depois de dez minutos no ônibus cheguei até o Parque Rodó pela primeira vez. O objetivo era visitar o Museu Nacional de Artes Visuais que ficava basicamente dentro do parque, mas do lado (rs). Pela segunda vez reparei que ao lado do museu havia um parque infantil. Seria proposital? Fiz a nota mental; reparar se todo museu tem um parque. Achei esse detalhe importante, porque obviamente minhas prioridades são ridículas. Parei em frente a entrada, imóvel, aguardando o fim de O CHAMADO – MARINA LIMA para finalmente tirar os fones e guardar a mochila. Eu desconhecia completamente o potencial do lugar a minha frente e não imaginava que meus próximos passos seriam um dos fatores mais importantes para tomar a decisão de sair do Brasil.

Até mais!

MONTEVIDÉU: UMA TRILHA SONORA é uma série de quatro textos com publicação semanal. Vocês podem ler a primeira parte AQUI. Fiquem ligados, terça que vem tem mais!