Montevidéu: uma trilha sonora

Quando eu tinha 10 anos eu decidi que meu sonho era fazer biologia marinha na Austrália. Sim, um grande sonho para uma Gabriela tão pequena. E depois outras decisões chegaram e todas elas envolviam sair do Brasil, conhecer lugares diferentes e explorar novos cenários. Conhecer pessoas e viver novas experiências. Tudo bem no estilo Comer, Fumar e Amar, despertando uma enorme expectativa dentro de mim. Me livrar da zona de conforto, me desprender do material. Muito lindo na imaginação, muito difícil na prática. Nós somos sustentados pela ilusão de que a grama do vizinho é sempre mais verde, e bem, a grama do Uruguai é verde pra caralho.

Primeiro preciso explicar que meu imaginário de vida ideal não envolve muito dinheiro, nem apartamento comprado ou carro do ano. Não. Nada disso realmente me importa. Eu desejo apenas o suficiente para ter o mínimo de qualidade de vida. Pagar um aluguel em um lugar simples, ter dinheiro para comer tranquilamente e viajar. Talvez uma carreira, talvez vários jobs. Dito isso venho anunciar que minha melhor viagem até agora foi Montevidéu. Sete dias em um AIRBNB no centro e apenas um amor: a cidade.  Escolhi seguir esse texto de uma forma que me agrada, impondo uma trilha sonora para momentos importantes. Meu fone de ouvido nunca será esquecido, porque cada cena merece um fundo musical apropriado. Este é o primeiro relato de minha viagem e semanalmente, todas as terças, um texto seguinte será publicado. 

O fone de ouvido acalentava meu coração com FRANK OCEAN – THINKING ABOUT YOU. Coloquei a mala por cima da cama às 18h23. Eu me lembro da hora porque havia um pequeno relógio na mesa de cabeceira – o qual eu tirei a pilha depois, odeio o barulho de tic tac antes de dormir. Estava exausta e ainda sim animada. Resolvi encontrar um Tinder Date para o jantar e vou poupá-los destes detalhes. O importante é que comemos o famoso Chivito (basicamente um x-tudo mas com bife macio em vez de hambúrguer) e papas fritas. Uma taça de vinho Tannat. Quando a conta chegou quase tive um infarto. 70 reais? 70 REAIS!!! Por um lanche e uma taça de vinho. Eu fiquei BITCH SAY WHAT?! Já havia lido em blogs que era caro comer no Uruguai mas porra, 70 reais? Tudo bem, paguei com tarjeta de crédito e seguimos a vida. Nota: pagar a conta de restaurantes e bares com cartão de crédito é um boa ideia porque existe uma devolução automática de imposto (acho que 9%, por ai). No final eu estava preenchida com o amor de uma boa refeição e dispensei o rapaz; minha cama era mais agradável.

Palacio Salvio
meu coração disparou quando eu vi o Palacio Salvo

No dia seguinte decidi apenas caminhar pela cidade escutando ASTROWORLD, novo álbum do Travis Scott. A vantagem de viajar sozinha é ter a liberdade de escolha; eu queria apenas me aventurar pelas ruas, observar a arquitetura, as pessoas, o clima, tudo que envolvia estar lá. Entrei em alguns lugares que me chamaram a atenção, sem roteiro ou horário. Percebi que Montevidéu é povoado por muitos idosos. Tipo, muitos. Mesmo. E notei a contradição imediata; uma cidade antiga englobando uma sociedade avançada. O aborto é legalizado, assim como a cannabis e a prostituição. A educação é prioridade. Existem direitos trabalhistas. Veja bem, isso não é uma comparação com o Brasil, afinal, ambos os países possuem  dimensões geográficas diferentes, assim como o processo de colonização e história. Porém foi incrível perceber a amplitude e importância de um lugar socialmente tão avançado. Existem outros problemas? Sim. Mas eu era uma mera turista deslumbrada e não queria tomar consciência dos defeitos de meu destino.

Enfim, eu andei muito. Mesmo. Andei pra caralho. Conheci as ruas de Ciudad Vieja, a rambla do Rio del Plata. Praças e parques, monumentos históricos. Eu fiquei meio enlouquecida com a arquitetura e toda hora queria tirar foto de uma casa ou edifício pelo simples fato de ser lindo e conservado.

Mas meu objetivo foi finalmente alcançado quando minha busca pelo google maps me levou até o Museo Del Cannabis.
Fui recebida por um simpático rapaz chamado Fernando, que foi meu guia pela casa histórica. Não, você não pode comprar maconha lá. Sim, você pode fumar o seu porro (beck) na parte do bar, tomar um chop ou o melhor refrigerante do planeta terra mais conhecido como Paso De Los Toros. Esse eu recomendo com força. É bem cítrico, feito de uma fruta regional chamada pomelo. Ela é tipo uma irmã-prima da laranja, um pouco mais azedinha. Amei muito e tomei todos os dias. Depois da visita acabar eu e Fer ficamos trocando ideia por um bom tempo e quando o sol foi embora a fome bateu. Encerrei o dia  com a felicidade eterna de uma Milanesa e batatas fritas (eles realmente gostam de batata). Dormi escutando o álbum TRIP, da JHENE AIKO.

Na sexta-feira meus objetivos foram mais concretos; fiz uma lista de museus que queria conhecer – tem muitos – e foquei na parte de arte e história. Decidi não visitar nada relacionado a ditadura porque sempre rola uma bad vibe e prefiro não recordar da capacidade do ser humano de ser escroto. Pois bem, abri o app Move it e tracei as rotas de ônibus. Sim! A passagem custa 36 pesos, mais ou menos 4,50 reais. Os lugares próximos eu fui andando – tudo é plano – porém optei pelo transporte público para me locomover até os mais afastados. Os ônibus são antigos e os motoristas dirigem feito loucos (pior que o RJ, juro) mas a economia valia a pena. O lugar mais distante que fui me tomou 20 minutos. O sentimento me permitiu colocar SOLANGE – CRANES IN THE SKY e assim cheguei ao Museu da História da Arte. Lá dentro eu fiquei quase duas horas. Foi legal e bonito, mas bem padrão.

dont touch, its art

Não vou me prender a descrever cada passo da viagem, apenas destacar os momentos importantes pra mim. E nesse dia foi conhecer o SUBTE, um centro de exposições de arte contemporânea. Fundado em 1940, é uma pequena galeria de arte subterrânea. Se não fosse sua fachada de painéis coloridos  no meio da PLAZA FABINI  eu jamais saberia que ali havia um espaço artístico. Quando notei a escada que guiava até as portas de vidro resolvi matar a curiosidade e me aventurar pelo underground. E que aventura, amigos. Sinceramente eu não entendo nada de arty mas olha, so many feelings. As obras não eram muitas, mas com certeza, singulares. Críticas ao consumo exacerbado dos anos 90, consoles Nintendo de todo tipo rodando SuperMario de diferentes épocas. A interação com a obra era através de pequenos botões anexos ao videogame que poderiam ser apertados (um por vez) e geravam glitchs não apenas visuais, mas no jogo também. Quadros que misturavam fotografia digital com filtros analógicos, sons e objetos, recortes e retratos. No final você registra sua visita com um carimbo feito com um ferro-de passar roupa no papel escreve seu nome. Vocês podem conferir mais coisitas sobre o lugar no INSTAGRAM deles. 

Bem, ai eu deixei o foninho moer THE CARTERS – EVERYTHING IS LOVE   e sai andando emocionada e feliz pela possibilidade de descobrir mais lugares como aquele.  Aluguei uma bike e sai pedalando pela Rambla enquanto o vento congelava meus ossos mesmo em uma tarde morna e ensolarada.  Deitar na grama a beira-rio/mar é lindo. O que me surpreendeu muito foi ver como as pessoas ocupam os espaços públicos, conscientes da importância do compartilhar, da limpeza, da colaboração. Realmente me peguei pensando sobre isso. E terminei o dia comendo empanadas, lendo catálogos e pequenos livretos sobre museus e pontos turísticos, imaginando se um roteiro sem roteiro seria possível. 

 

MONTEVIDÉU: UMA TRILHA SONORA é uma série de quatro textos com publicação semanal. Fiquem ligados, terça que vem tem mais!