Natasha, Pierre, o Grande Cometa de 1812 e a busca de um sentido na vida

Dá uma estudadinha antes, por favor
Pra você poder entender…

Se você curte literatura já deve ter ouvido falar de Guerra e Paz. Sabe aquele pequeno romance russo com mais de 50 personagens, cheio de aristocratas de nomes enormes, ligados entre si por relações familiares e servis, que tentam sobreviver às Guerras Napoleônicas? Não me entenda mal, caro leitor, mas não me interessa se você leu ou não esse tijolão monumental de Liev Tolstói (eu mesma estou tentando há quase dois anos e não acho que consigo terminar tão cedo). O problema é que parte do entendimento desse texto depende que saibamos da existência desse livro enorme, pesado, complicado. Isso porque vamos falar de nada mais, nada menos que Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812 (popularmente conhecido como The Great Comet – ou Cometão para os fãs brasileiros).

montagem original no Ars Nova

The Great Comet é uma ópera eletrônica escrita, composta e orquestrada pelo músico norte-americano Dave Malloy, inspirado em um trecho de 70 e poucas páginas do clássico de Tolstói. O espetáculo estreou em 2012 no Ars Nova – um minúsculo teatro de Nova York famoso por ser um celeiro da vanguarda artística local – e pouco a pouco foi crescendo e ganhando notoriedade até ganhar uma famosa e luxuosa produção na Broadway. Após anos de espera, a primeira montagem fora dos EUA estreou em São Paulo em setembro, trazida pelo diretor Zé Henrique de Paula e seu famoso Núcleo Experimental.

Pois é um romance russo complicado
Muito nome pra decorar
Estude bem o programa
Obrigado pela atenção…

Os versos acima fazem parte do prólogo da peça, no qual são apresentados os personagens: as primas Natasha Rostova (Bruna Guerin na versão brasileira) e Sonya (Adriana Del Claro / Miranda Kassin) chegam em Moscou para passar uma temporada com Marya (Nábia Vilella), a madrinha careta, enquanto seus noivos lutam contra as tropas napoleônicas na campanha russa de 1812. Já Pierre Bezukhov (André Frateschi), velho amigo da família, está preso em um casamento infeliz com a amoral Hélène (Carol Bezerra) e passa os dias dividido entre ler e beber, isolado em seu escritório e mergulhado em uma depressão profunda. Hélène, por sua vez, está envolvida em um caso extraconjugal com Dolokhov (André Torquato), melhor amigo de seu irmão, o hedonista Anatole (Gabriel Leone).  A história se desenvolve a partir do momento em que Natasha conhece o pai e a irmã de Andrey (Patrick Amstalden e Lola Fanucchi), e a recepção mais que fria da dupla faz com que a ela se sinta isolada. Ingênua e indecisa, a jovem logo se apaixona por Anatole, e este envolvimento escandaloso repercute nas vidas de todos os personagens.

montagem brasileira no 033 Rooftop Santander

Embora pareça simples (ainda que a quantidade de personagens seja capaz de dar um nó na cabeça de qualquer um), o segredo do Grande Cometa está na sua música e na experiência imersiva. Desde sua montagem original até a Broadway (replicada na versão brasileira), a equipe técnica e criativa liderada pela diretora Rachel Chavkin desenvolveram um projeto único, eliminando o tradicional palco italiano e colocando a plateia dentro da ação. Assim que o espectador entra no teatro, somem as poltronas enfileiradas e surgem mesas, cadeiras, sofás e candelabros simulando um luxuoso supper club russo – os antigos restaurantes das elites do século XIX. Quando o espetáculo começa, o elenco se movimenta no mesmo espaço, transformando todo o ambiente em um grande palco. Imagine que na Broadway era possível dividir uma mesa com Natasha e Mary durante uma cena particularmente tensa entre elas, ou então acompanhar os músicos com chocalhos entregues pelos próprios atores. Aqui no Brasil, há momentos em que os espectadores são convidados a bater palmas, entregar uma carta para determinado personagem, além de ganhar presentes dos personagens…o limite entre palco e plateia se dilui e todos dividem a carga emocional de acompanhar a trajetória emocional dos protagonistas.

Se a vida é dormir
Até encontrar o amor
Somos feitos de pó e cinzas
Mas quando o amor nos vem despertar
Subimos aos céus aos pés de Deus

A imersão é interessante por si só, mas a experiência de vivenciar o cometa estaria incompleta sem outro grande triunfo: a música de Dave Malloy. Conhecido na cena alternativa de Nova York por seus musicais malucões –  um deles, Ghost Quartet, é uma série de histórias sobre fantasmas que mistura folk music com Thelonious Monk, astrologia, As Mil e Uma Noites e Edgard Allan Poe (e que, por mais estranho e confuso que seja, é realmente muito bom e interessante de ouvir, acreditem em mim) – Malloy mistura uma série de referências que vão da música folclórica russa ao techno, passando pelo soul, R&B, indie e jazz. A combinação de todos esses ritmos tocados quase initerruptamente durante as quase três horas de show gera uma verdadeira – com o perdão do trocadilho –  salada russa.

Outro grande triunfo do musical são as letras das músicas, muitas vezes transpostas por Malloy diretamente da versão americana do livro. Por isso, vez ou outra há trechos que narram frases completas da obra original, sem a utilização de rimas ou adaptações que deixariam as melodias mais “suaves”. Esse recurso, que soa estranho aos ouvidos à primeira vista, serve para aproximar e familiarizar o espectador ao estilo literário de Tolstói. Ainda assim, também há espaço para a exploração da filosofia do autor – costuma-se dizer que Guerra e Paz é, antes mesmo de um romance histórico – um grande ensaio sobre a natureza humana e a insensatez da guerra e do conflito de classes. E esse pensamento se transfere principalmente nas músicas do depressivo Pierre:

Quantos homens conheci bons e leais
Fieis à verdade e ao rei
Chegam aqui repletos de vigor
E ficam sem ambição
Seus fracos e tolos, são todos covardes
Sempre aceitam seu fim
Eu não sou assim, eu não sou mais um
Eu vou ter um legado

A depressão e o cinismo de Pierre contrastam com a felicidade e da jovem Natasha, apaixonada e certa (até demais) de seu lugar no mesmo mundo que ele rejeita.

Quando eu te conheci era noite de luar
E eu vi seu olhar e ouvi sua voz
E o mundo se abriu

Eles olham pra mim, eles falam sobre mim
Me admiram demais e têm inveja
E eu olho atônita

Apesar de serem amigos de longa data, tanto Natasha quanto Pierre passam praticamente todo o espetáculo separados, ainda que suas histórias se cruzem através dos outros personagens. O encontro acontece apenas no final: ela, fragilizada pelo escândalo no qual se envolveu; ele, com remorso por não ter percebido o que acontecia a sua volta e conseguir protegê-la. Considerada uma das cenas mais belas do teatro americano recente, ambos trocam palavras de ternura e gratidão por uma amizade negligenciada durante muito tempo.

Ao se despedir de Natasha, Pierre percebe que ama a amiga (não necessariamente um amor romântico, e sim como um sentimento de compreensão e identificação no outro – embora eles terminem o livro casados, muitos anos depois, mas esse detalhe fica para outro dia). Atônito, ele vaga pelas ruas de Moscou e testemunha a passagem do Grande Cometa, e a beleza do momento, banhado pelo mesmo luar que Natasha tanto aprecia, o leva a uma epifania:

O luar e o frio
E sobre a lua gris
Sobre os telhados
As estrelas no céu

E pareceu
Que o cometa
Via minha alma
Melhor que ninguém
E um novo coração florindo
Porque eu acordei

Os cometas são astros periódicos. Dificilmente permanecem na mesma posição por muito tempo. Por isso testemunhar um deles riscando o céu com seu brilho dourado é uma oportunidade única, poética e gratificante.  Embora as montagens americanas tenham se encerrado, cumprindo sua trajetória cósmica, ainda é possível apreciar o brilho da versão brasileira, que segue em cartaz em São Paulo até o fim de novembro.  A combinação do mergulho imersivo na cultura russa às músicas e à filosofia de Tolstói resultam em uma experiência quase sinestésica, daquelas que raras vezes temos chance de vivenciar.

Se você quiser explorar a playlist com as músicas da produção da Broadway, você pode ouvir AQUI, mas como dissemos, nada substitui a experiência em si, então recomendamos muito assistir a peça:

Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812
Autor: Dave Malloy, inspirado em “Guerra e Paz”, de Liev Tolstói
Com: André Frateschi, Bruna Guerin, Gabriel Leone
Direção: Zé Henrique de Paula
Local: 033 Rooftop (Teatro Santander)
Sextas às 21h30, sábados às 16h e às 21h30, domingos às 19h30.

Ingressos a partir de 65 reais na bilheteria e no site www.ingressorapido.com.br

 

2 comments

  • Anna Livia Marques

    Mano, juro por Deus que esse foi um dos musicais mais incríveis que eu já vi ao vivo. E as atuações estão ótimas e as musicas funcionam super bem em português. Vale MUITO a pena conferir. O próprio Dave Malloy veio ver e aprovou e se emocionou <3

  • Deisy Rodrigues

    Jaque eu lembro até hoje quando você me apresentou o Cometão pela primeira vez e desde então nunca mais saiu da minha playlist do Spotify. Ver o musical incrível ao vivo é uma experiência única, que foge totalmente do clássico e tradicional que estamos tão acostumado a ver por aqui, uma oportunidade que não deve ser perdida. O seu texto tá lindo e passa de uma forma muito verdadeira tudo que o Cometão representa.

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