O mito contemporâneo da produtividade

“Ai, esse ano minha resolução é não ser tão ocupada”

“Eu simplesmente não consigo ficar parada”

“Pra mim é impossível não ter 30 projetos rolando ao mesmo tempo. Menos que isso e eu fico entediada e morro”

São essas e tantas outras frases que eu ouço constantemente vindo de pessoas hiper-produtivas e workaholics. Mal sabem elas que isso é uma maneira sutil de esfregar o privilegio da produtividade delas na minha cara. É o equivalente de uma pessoa magra falar “ai olha como eu estou gorda depois do natal?”. Não, você não está gorda (*eyeroll*); mas, enfim, gasto minha revolta no lugar errado aqui. Vamos focar na produtividade porque essa é a polêmica do dia.

No mundo atual, grande parte do valor de uma pessoa é medido por sua produtividade: o quanto ela faz, seja no trabalho ou fora dele. Quanto mais você trabalhar, quanto mais coisas você fizer em um final de semana, quanto mais ocupada e exausta você estiver, mais “ideal” é a sua vida. Carpe Diem, viva como se não houvesse amanhã, YOLO, encha seu insta-stories de coisas, aproveite, só não esqueça de usar filtro solar!

Existe um mito contemporâneo da exaustão como confirmação de caráter que eu simplesmente não compreendo. Claro que em uma sociedade capitalista há de se esperar que produtividade seja valorizada. Produtividade gera capital. No entanto, nós trazemos esse padrão capitalista até mesmo para fora do contexto de trabalho. Um final de semana ideal não pode ser simplesmente passar o dia inteiro na cama abraçando seu gato (o animal… não um ser humano bonitão… eu não tenho um ser humano bonitão pra abraçar, se tivesse eu prometo que abraçaria) e esperando o almoço ficar pronto. Um final de semana perfeito envolve uma corrida no parque, depois um brunch com os amigos, depois uma piscina, depois um café com a avó, depois uma passadinha rápida no shopping pra comprar aquela roupa pra festa semana que vem, depois um bar com os amigos, depois uma balada e ainda terminar o dia as 6 da manhã comendo pastel de feira. Ai que delicia! Ver essa lista por si só já me deixa cansada. Eu adoraria a parte do brunch e da piscina, mas depois disso eu ia querer tirar uma soneca e quem sabe pedir uma pizza a noite enquanto revejo The Office pela 18a vez.

Como uma pessoa absolutamente inerte, alguém que precisa de um puxão para sair do lugar, que precisa recarregar as baterias constantemente pra simplesmente conseguir levantar pela manhã e ser um ser-humano minimamente competente, a idéia de ter que estar constantemente em atividade, constantemente engajada é assustadora. Eu me sinto “faltando” algo, como se estivesse perdendo coisas, não aproveitando a vida ao máximo. Eu me sinto… inútil. Se meu caráter e valor são medidos pela minha produtividade e eu não estou produzindo, isso significa então que eu não tenho valor nenhum. Todo ano uma das minhas resoluções é “ser mais produtiva, não perder mais tempo fazendo nada”. A questão é que… não fazer nada é meu estado natural.

Eu entendo que algumas pessoas são de fato ligadas no 220, minha mãe mesmo é uma delas. Eu não sou. Eu consigo preencher horas e dias e semanas com coisas absolutamente triviais e que não são consideradas pela sociedade como “produtivas”. Por exemplo, eu consigo passar literalmente 8 horas seguidas simplesmente imaginando um cenário hipotético na minha cabeça onde eu nasci no sul asiático e quando eu cresci decidi ser uma pirata. Eu consigo passar 6h vendo vídeos no youtube e pelo menos umas 4h ouvindo episódios velhos de podcasts que eu já ouvi antes enquanto abraço meu gato na cama – não sei se vocês perceberam, mas a temática de abraçar meu gato na cama é recorrente. Eu poderia passar um final de semana inteiro de pijama em casa e estaria feliz. Em momento algum sequer passaria pela minha cabeça que tomar um banho e sair poderia ser uma boa idéia.

Tudo isso, porém, é visto de maneira negativa (e a parte do banho eu até entendo, porque… não durmam sujos, amiguinhos, tomem banho, por favor). Eu tenho que rejeitar meu estado natural e virar uma pessoa que não sou para entrar nos padrões da sociedade. Se você não postar nada bacana nas mídias sociais por mais de uma semana as pessoas vão achar que você morreu! Eu preciso fazer “atividades”. Eu preciso ser “produtiva”.

Afinal de contas, o que de fato é ser produtiva? Qual é o ganho que se tem em tomar brunch no final de semana e por que isso é visto como algo melhor do que imaginar um cenário hipotético onde eu sou uma pirata sul-asiática? Eu até mesmo diria que mentalmente existe maior engajamento em elaborar todo um cenário hipotético onde eu sou uma pirata do que eu comer uma bruschetta e tomar umas mimosas. Uma atividade é muito mais ativa, mentalmente, e a outra é muito mais passiva. No entanto, uma tem a ilusão, para quem está de fora, de inatividade, enquanto a outra parece algo ativo (especialmente, não vamos esquecer desse elemento, porque você pode tirar uma selfie com a sua comida e aí o mundo inteiro vai ter uma prova concreta de que você venceu na vida!). Gastar horas criando um mundo fictício não é perda de tempo. Isso envolve enorme engajamento, imaginação, detalhes; gera, se nada mais, crescimento pessoal e riqueza de universo interno e isso, pra mim, são valores enormes. Valores que podem sim ser usados pela sociedade, pois geram uma pessoa empática e criativa, capaz de sair da bolha do que é esperado.

Há que se pensar o que essa produtividade realmente significa e qual o valor que se dá para cada coisa. A ilusão de atividade não necessariamente significa um ganho pessoal ou mesmo para a comunidade. Que valor é gerado por um brunch? Crescimento econômico, talvez, mas qual valor pessoal? Se daquele brunch sair uma amizade mais forte, uma mente mais leve, ou algo além de uma barriga cheia e uma selfe, então ele valeu a pena. Se de um final de semana na cama sair uma pessoa mais capaz, mais descansada, saudável e empática, então ele valeu a pena.

Eu compreendo que de segunda a sexta eu tenha que ser produtiva ou serei demitida e não terei como pagar minha conta na Netflix, mas a idéia de trazer esse mesmo padrão para a minha vida pessoal me parece ridícula. A menos que esse seja seu estado natural, não tente ser uma pessoa hiper-ativa quando você não é. Exaustão não é prova de caráter. Exaustão constante é doença. Leve o tempo que você precisar levar para fazer as coisas. PERCA tempo! Se isso é aproveitar a vida para você, faça isso. Perca quanto tempo quiser. Seu valor não é medido em quantas coisas você fez em uma semana. Valor não reside na ilusão de atividade, mas no engajamento real que se tem com as coisas.

O que nasce de uma corrida no parque, seguida por um brunch, seguida por uma piscina, seguida por um café… ? Mas, quem sabe, da minha inércia física não possa nascer uma maravilhosa nova saga – o novo Game of Thrones if you will – focada nas aventuras de uma pirata sul-asiática? Quem vê pensa que eu estou realmente querendo vender essa ideia e esse post inteiro na verdade é uma looonga maneira de promover essa história. “Assinem um abaixo assinado aí nos comentários para que esse sonho vire realidade!”, mas não, amigos, sabe por quê? Porque eu NÃO SOU UMA PESSOA PRODUTIVA! Agora deixa eu voltar aqui a abraçar meu gato na cama e ver vídeo no youtube.

3 comments

  • ALINE TAVARES CORREA

    Acho o ócio muito importante, é saudável ficar um tempo sozinha, sem fazer nada importante, curtindo o momento e descansando o corpo e a mente. Deveria ser o verdadeiro segredo da longevidade.

  • Silvia

    Nunca estive tão feliz e tão à toa! Adoro curtir meus momentos improdutivos! O primeiro do ano foi dia 31/12, que saí pra comprar uma roupa nova pra passar o final do ano num “roof top champagne free bla bla” e no meio do caminho mudei de ideia e acabei comprando um pijama DELICIOSO pra passar a virada assistindo Home Alone. Hauahaua tamo junta!

  • Tatiana Leite

    Fazer vários nadas é meu passatempo favorito na vida! Na faculdade eu era tão “produtiva” (o que era esperado de uma nerd, não de uma pessoa ~social) que, quando acabei meu tcc, passei um semestre fazendo declarações de amor à minha cama e fui mais feliz que em muitos momentos da minha vida. Por isso eu sempre digo: nunca subestimem a cama de vocês e a felicidade que o nada pode trazer. De verdade!
    Anna, minha filha, eu já te achava 100/10, mas agora você é 1000/10

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