Erinnern, um nie zu vergessen… para que nunca mais aconteça

A primeira vez que eu pisei em Berlim foi em julho de 2010 durante um daqueles mochilões à jato em que, na inocência, acreditamos ser possível conhecer profundamente dezenas de capitais européias em míseros vinte e poucos dias. Ah… a prepotência juvenil…

Eu, como um desses jovens prepotentes, realmente acreditei estar conhecendo tudo que podia conhecer dos lugares que pisei. Passei por todos os pontos turísticos, dei check atrás de check no meu guia de viagem, tirei umas fotinhos espontâneas na frente de monumentos e pronto, minha responsabilidade como turista aventureiro estava feita.

torre de tv da antiga Berlim oriental (foto: Alexandre Sarian)

De todas as cidades pelas quais passei, no entanto, Berlim foi a única que parecia resistir a essa forma de viagem irresponsável. Eu tentei absorvê-la fully durante aqueles quatro dias, mas ela não cansava de se mostrar grandiosa, complexa, algo muito maior do que minha percepção imediatista podia suportar. A cada esquina, ela se abria mais, se desdobrava, revelava novas espaços, diversas facetas e uma estrondosa personalidade. Fiquei fascinado e, ao fim da minha curta estadia na cidade, soube que precisaria voltar, não para passar alguns dias, mas para viver. Berlim me fisgou por completo.

Quatro anos depois, realizei meu sonho. Os motivos pela minha atração e consequente mudança são muitos. Poderia citar a atmosfera criativa que permeia a cidade, a valorização à arte de modo geral, a chocante e igualmente fascinante cena alternativa, a pluralidade de culturas ou a existência de uma kebaberia a cada esquina. Aqui, no entanto, vou me focar no que acredito ser sua característica mais evidente, sua história.

memorial aos judeus mortos (foto: Anna Lívia Marques)

A história de Berlim não é particularmente leve. Como bem sabemos (e não custa nada relembrar) durante as décadas de trinta e quarenta, a capital alemã foi palco para ascensão e estabelecimento de um sórdido governo de extrema-direita que defendia pautas higienistas e se baseava no medo e na perseguição de minorias para solidificar seu poder. Como não podia deixar de ser, a defesa de tais ideais culminaram em uma guerra que, por fim, acabou deixando cerca de oitenta por cento da cidade em escombros. Pra dar uma piorada básica nessa história toda, a derrotada Berlim foi dividida entre as nações vencedoras da guerra e teve todo o seu território cortado por um muro físico, de verdade, por mais de vinte anos!

E como que uma cidade marcada por uma história tão pesada e recente de destruição, morte e divisão consegue despontar nos dias de hoje como uma metrópole multicultural, símbolo de modernidade, liberdade e inclusão? Bem, a resposta é mais simples do que podemos imaginar: porque ela soube reconhecer e valorizar a sua trajetória.

Um simples passeio pelo centro de Berlim é não só uma viagem por sua história como também um mergulho na própria consciência da nação alemã. A cada passo é possível tropeçar em um memorial que remete a momentos importantes das décadas passadas. Eles, no entanto, não exaltam as glórias da pátria e seus grandes heróis, mas sim os erros do passado, as injustiças, a perseguição e os crimes legitimados pelo Estado durante anos. Em uma volta no quarteirão, por exemplo, é possível encontrar o memorial aos homossexuais perseguidos durante o governo nazista,  o memorial aos ciganos presos, deportados e assassinados durante a guerra, o memorial aos judeus mortos na Europa e o memorial aos corajosos berlinenses que morreram durante a tentativa de travessia pelo muro de Berlim.

“stolperstein” são pedras no chão, marcando o ultimo local de morada ou trabalho daqueles perseguidos pelo nazismo. andando por Berlim, podem ser encontradas por todas as partes (créditos: wikipedia)

Voltando ao título desse texto, a frase “Erinnern, um nie zu vergessen” ou, no português, “Relembrar, para nunca esquecer” parece uma idéia meio óbvia, um pleonasmo talvez, mas é, na verdade, o pensamento motor do alemão e a grande justificativa para todos esses memoriais espalhados pela cidade. Assim como na vida, precisamos sempre reconhecer os nossos passos em falso, relembrar de todos os momentos obscuros da nossa própria história e se responsabilizar por eles. Só assim aprendemos e evitamos cometer esses mesmos erros no futuro. Não podemos esconder fatos, apagar a história e consagrar sordidez com o simples propósito de vivermos com uma consciência limpa ilusória. Lembre-se, alienação abre espaço para novos oportunistas com velhos discursos que, inevitavelmente, nos guiam aos mesmos resultados desastrosos.

Fica a esperança para que, como brasileiros, possamos aprender um pouco mais com a história alemã.