Raphaël

aperta o play antes: https://www.youtube.com/watch?v=riXYWLo622w

 

Às duas da manhã, ajudei Raphaël entrar com os poucos caixotes de uma mudança feita às pressas no apartamento que dividia com Èric. Os olhos estavam vermelhos e a expressão nunca esteve tão desapontada. As palavras eram de revolta.

— Não consigo acreditar! — disse quando caminhamos pelas ruas de madrugada, antes de chegar em casa. — Hipócritas do caralho.

— Eles um dia vão se arrepender disso. — eu tentava consolá-lo, sem saber, de verdade, como o fazer.

Raphaël tinha acabado de contar para os pais que estava namorando. Senhor e Senhora Castell acharam o máximo, até descobrirem que quem o filho deles estava namorando era Felip. Não que eles soubessem quem de fato era Felip, mas no final só uma coisa importava: Raphaël era gay, e isso para a sra. Castell era bem parecido com a morte. A briga aquela noite foi feia, e meu celular tocou por volta da uma da manhã, pedindo ajuda. Felip estava na casa dos pais em Girona aquele final de semana e voltava pela manhã, e não tinha como Raphaël ficar com ele.

— É melhor assim. — disse o moreno alto com lágrimas rolando pelo rosto, ainda que sua expressão fosse de grande desgosto — Não queria que ele achasse que me arrependi.

— E nem deveria. — respondi, sempre tentando mostrar que ele estava certo, ainda que eu não soubesse, nem por um segundo, o que estava passando.

Foi por causa de Diane que viramos amigos. Dividimos tardes à beira da piscina do condomínio dos seus pais e ao longo de um verão desenvolvemos uma amizade fácil. Se antes a única coisa que tínhamos em comum era Diane, hoje, com ela longe, dividíamos várias outras: idas ao cinema, círculo de amigos, festas no centro da cidade, o gosto musical e o senso de humor. Com Raphaël eu aprendi a identificar e eliminar meus preconceitos, que eu nem sequer sabia que tinha. Estavam enraizados por uma sociedade machista, mas que, junto comigo e por conta de pessoas como ele, ia se transformando.

Quando nos conhecemos, tinha até uma namorada. E não é que se descobriu aos poucos, nada disso; foi aos poucos que teve coragem de se mostrar. Primeiro, elogiava caras na nossa frente — e Diane acreditava que era só o seu amigo sendo um heterossexual moderno. Depois, em alguma festa bêbado, foi quando ficou com um cara pela primeira vez. Quer dizer, pela primeira vez na nossa frente. Mais tarde, Rapha nos contou sobre os casos que teve na adolescência, escondidos a sete chaves até da sua melhor amiga.

Seu gosto pelo pop e por músicas difíceis de serem encontradas, as roupas bem selecionadas e a cultura que um cara como eu nem sequer sonhava em ter: Raphaël era alguém que qualquer pessoa — homem e mulher — gostaria de ser ou ter por perto. Rapha sempre parecia a pessoa mais sensata do grupo. Sempre tinha pontos de vista incrivelmente bem construídos e às vezes nos sentíamos até um pouco burros por não termos chegado àquela conclusão com mais facilidade. Também era difícil bater de frente com ele — não era um cara que desistia fácil de uma treta, e isso podia ser bem cansativo. Agora, às três da manhã sentado em minha cama, dividindo coisas de sua vida que eu sequer poderia sonhar, era até impressionante vê-lo em uma posição tão vulnerável.

— Quando íamos à Santa Maria, eu sempre pedia pra começar a gostar de mulher nas minhas orações. — confessou entre uma cerveja e outra.

— Caralho. — foi o que consegui responder. Pedir pra ser outra pessoa não entrava na minha cabeça. — Por causa da sua mãe?

— Por tudo. — respondeu, com uma risada nasalada. — Você já estudou em uma escola? Com outras pessoas?

Eu esperei um segundo para que ele continuasse, mas do jeito que me olhava, a pergunta era séria. Balancei a cabeça com um sim.

— Bom, então você deve saber que “bichinha”, “viadinho”, não é o mesmo que te chamarem de “que cara legal”. É pior do que ser gordo, do que ser feio, do que ser vesgo.

— Não que sejam coisas ruins.

— De jeito nenhum, — e tomou mais um gole de cerveja — mas na adolescência, qualquer coisa que seja fora do que é considerado “normal” é horrível. E ser gay é a pior delas.

Tirei um minuto pra pensar sobre. Eu tive a sorte de estudar em um colégio bom e de ter sido amigo de todos meus colegas. Sempre estive dentro de todos os padrões necessários pra não ter sofrido nessa época. Talvez eu até fosse uma das pessoas que praticava bullying em algum momento. Sentado ali, com um cara de vinte e seis anos que estava sofrendo pela primeira vez por decidir ser quem ele era, eu comecei a entender como minha vida tinha sido fácil até então. Eu não precisei escolher ser quem eu era. Eu simplesmente era, e nunca tinha sofrido por isso.

— Caralho, Rapha. — consegui dizer, depois de um tempo. — Eu sinto muito por isso.

— Tudo bem. A culpa não é sua. — ele sorriu pela primeira vez na noite, e foi o suficiente para conseguir dormir em paz, ainda que ele estivesse dormindo mal a beça, dividindo a cama comigo.

Quando acordei pela manhã, Raphaël já tinha trocado de roupa e tomado banho. Estava falando com alguém no telefone e pela quantidade de sono eu não consegui entender direito sobre o que era. Quando desligou a ligação, ouvi seus passos se aproximarem, até abrir a porta do quarto e caminhar até meu lado da cama. Sua mão tocou meu ombro e me virei assustado, o que fez com que ele também se assustasse. Segundos depois rimos. Me sentei na cama e ele também.

— O Felip tá lá embaixo, veio me buscar.

— Nossa, já? Que horas são? — perguntei com um bocejo.

— São dez horas.

— Ah, nossa! — foi como se tivesse tomado um shot de cafeína, dando um salto da cama. — Vamos lá, eu te ajudo.

— Não precisa! Pode voltar a dormir.

— Não, vamos lá.

Descemos os caixotes, que ainda que fossem poucos, não cabiam na cabine do elevador e exigiram duas viagens. Quando colocamos tudo no porta-malas de Felip, sabia que era hora de nos despedir. Nos abraçamos por alguns segundos e sorrimos, ainda que o sorriso de Rapha tivesse mais dor que alegria. Achava injusto uma vida a dois começar daquele jeito. Assisti o casal entrar no carro, mas antes que Felip desse partida, me aproximei da janela do carona e dei duas batidas, esperando o vidro descer.

— Ei cara, vai ficar tudo bem.

— Valeu. Você é foda.

— Você também. Contem sempre comigo.

E quando o carro partiu, sabia que meu amigo estava em boas mãos. E quando disse pra ele que ficaria tudo bem, anos depois constatamos que estava certo. Estava tudo bem com Raphaël.

 

 

Raphaël faz parte da série de ficção (des)encontros criada por Fernanda Rentz. Vocês podem ler o texto anterior AQUI e acompanhar no Allora as próximas publicações toda quarta-feira.