Roma e a pureza das memórias

Um filme que parece uma memória recontada e recontada tantas vezes que dela sobra algo entre a verdade e um sonho. Assim é Roma, o mais recente filme de Alfonso Cuarón, diretor mexicano que passou a última década e meia fazendo grandes épicos Hollywoodianos. Desde meu filme favorito de Harry Potter (o Prisioneiro de Azkaban), passando por Children of Men até chegar em Gravidade. Todos eles foram bons, ao seu modo, mas nenhum foi tão sincero quando esse.

Roma é uma história semi-autobiográfica e em parte baseado nas memórias de infância do diretor, que cresceu na Cidade do México nos anos 70. O filme segue Cleo, uma empregada doméstica de origem nativa que trabalha numa casa de classe média no bairro Roma (da onde o filme tira seu nome), para uma família de 5 filhos cujos pais estão se separando. Entre divórcios, brigas, crianças e mudanças políticas, a história é contada lentamente, sem pressa e sem grandes edições. Reviravoltas acontecem, mas elas não vem como clímax ou ponto de virada, elas vem como surpresas da vida real, com as quais se fica chocado por um minuto e se lida no minuto seguinte. O próprio nome e a maneira como é filmado – em preto e branco – tem um tom de neo-realismo italiano, que remete à essa ligação entre realidade, memória e imaginação.  Que vai do plano geral aberto, para um plano fechado e para uma pan reveladora, como alguém que observa o mundo. Esse é um filme muito focado em mulheres e suas dificuldades e filmado com uma sensibilidade quase feminina, um olhar que se demora, que vê camadas e detalhes.

Uma das mulheres do filme é Sofia (interpretada por Marina de Tavira): a chefa.  Ela começa a história indefesa e subjugada perante o marido, que a trata mal, humilha e acaba traindo-a e divorciando-se inesperadamente. Dessa forma, Sofia se vê pela primeira vez na vida independente… e não por escolha própria. Ela é a responsável pelo sustento da casa, pela educação dos filhos e por quem ela quer ser daqui para a frente. Sua história é baseada nos privilégios que teve e que se viraram contra ela e como o esperado por mulheres “bem educadas” nos anos 70 não as prepara para duras realidades. Todo o estresse e opressão que ela sofre são descontados em Cleo, que representa uma segunda leva de mulheres, uma classe mais baixa.

Cleo é mixteca, veio de Oaxaca e está sozinha no mundo, tendo que se virar na cidade grande trabalhando em casa de família. Ela não tem controle ou escolha perante suas circunstâncias e situação, sua opressão é tão grande que ela apenas se submete. Cleo conhece um rapaz militar, de quem ela engravida e que a abandona sem pensar duas vezes. Grávida, prestes a ser mãe solteira e empregada doméstica. Essa realidade se aproxima muito da realidade da própria atriz Yalitza Aparicio. Atualmente com 25 anos, Aparicio nunca havia feito um filme antes. Esse é seu primeiro. Ela foi criada por uma mãe solteira empregada doméstica de origem tique. Seu pai, de origem mixteca a abandonou. Novamente a influência do neo-realismo se mostra com a escolha de não atores que viveram de fato a experiência, que podem demonstrar um nível de vulnerabilidade que só a realidade e a memória são capazes.

A memória, no entanto, vem que um porém. Ela limpa várias das questões, a memória é água que vem e vai e escorre, levando pequenas coisas consigo. A memória se afasta de certas responsabilidades e se ausenta, virando apenas espectadora e não responsável por confrontar as realidades apresentadas. O filme faz muito disso, de mostrar certas questões sem questionar suas ramificações.

Não digo isso nem em relação ao fundo de contexto político do filme. Esse ar épico de uma guerra civil da qual pouco se sabe é um contraste interessante em relação à história pequena da rotina de uma empregada e uma família. O que é grande para a sociedade se torna pequeno dentro das necessidades de sobrevivência do dia a dia e vice versa.

Falo isso em relação a ausência de uma voz autoral em relação à Cleo. Sua personagem é central à história, no entanto, é impossível citar 2 de seus hobbies, coisas que goste de fazer, ou suas aspirações, suas esperanças. Sua personalidade é vazia e ela está ali, literalmente, a serviço dessa família e nada mais. Ela pode amar a casa e as crianças, mas também não faz parte do circulo deles. Ela só é “parte da família” quando conveniente, quando ser parte da família quer dizer ajudar com a louça mesmo em seu dia de folga.

O filme faz questão de mostrar o quanto Cleo é um outsider, na sociedade e na família com quem trabalha, mas ele não faz a personagem questionar sua situação, não existe ali um ressentimento ou uma vontade de mudança, não existe nem mesmo o entendimento de que nada ali foi escolhido, uma vez que a posição social de Cleo a priva de escolher sua realidade. A família também nunca chega a compreender que Cleo é um ser humano próprio que merece uma vida completa e separada deles. Nesses ares de nostalgia, falta para Cuarón a vontade de confrontar certos erros do passado. Por mais idílica que seja a memória, o filme sabe que existe uma camada social importante ali, mas faz questão de se abster de comentários ou questionamentos. É a memória se fazendo de mosca na parede que se recusa a pousar na sopa e causar ondas. Fazer isso seria manchar um momento formativo, seria mexer no vespeiro sem saber o que vai sair dali, seria terapia demais para Alfonso, talvez…

Mesmo assim, existe em Roma uma honestidade que só é possível quando se fala do que se conhece. É muito claro ver o quanto de Cuarón foi deixado nesse filme, o quanto ele se abriu. Este é um retorno às origens para o diretor, não só na história, mas na maneira como ela é contada; mais pessoal, mais intima, algo que ele não fazia desde de Y Tu Mamá También. O filme é absolutamente de Cuarón, não só porque ele escreveu e dirigiu, ou porque foi ele também quem fotografou e editou, mas porque é a vulnerabilidade dele que vemos em câmera, e a vulnerabilidade que os atores compartilham com ele. Ele esteve presente em todos os momentos e essa é sua visão. Uma mistura das suas raizes e tudo que aprendeu fora. Um retorno para casa e, quem sabe, para uma forma de fazer cinema diferente da de Hollywood. Um meio termo entre o épico e o pessoal, entre os estúdios e o indie. Um filme que torna grandioso uma história pequena e que dá há uma história pequena um background grandioso. Um filme que faz da Netflix uma concorrente ao Oscar e capaz de lançar filmes no cinema. Um filme que nos dá esperança de que Cuarón encontrou o que estava procurando na última década e está pronto para entrar agora em uma nova era.

Se ele deixa de questionar questões importante ou não, ainda assim esse é um filme de coração exposto, e quando algo chega assim, tão sincero, batendo na sua porta, o que se pode fazer se não recebê-lo de braços abertos?