Sex Education é e não é tudo isso

Se sexo já é uma coisa meio complicada para adultos, imagina para adolescentes que começaram agora. As coisas não se encaixam direito, é tudo muito confuso, por algum motivo você achou que ia ser legal mas não está funcionando… Se fazer sexo já é complicado, falar sobre ele então é missão impossível! A gente bem sabe o taboo que é admitirmos certos problemas, isso acompanhado de toda a pressão social de ter seus 16 anos torna a coisa toda gigantesca.

Essa é a premissa básica de Sex Education, nova série de comédia inglesa da Netflix. Criada por Laurie Nunn e dirigida em sua primeira metade por Ben Taylor e depois por Kate Herron, a série conta a história de Otis (Asa Butterfield) um adolescente cuja mãe Jean (Gillian Anderson) é uma terapeuta sexóloga que, depois de se separar do marido, passa a trazer uma série de one-night-stands para casa e começa a falar com o filho sobre sexo e uma maneira que o menino acha quase inapropriada. Otis tem um sério problema – para além de sua mãe ter vídeos educativos ensinando como colocar camisinha – ele não consegue se masturbar. Otis conhece então Maeve (Emma Mackey), uma menina inteligente, mas completamente hostilizada na escola, que o convence a ser terapeuta sexual para seus colegas em troca de dinheiro.  Assim Maeve, Otis e seu melhor amigo gay Eric (Ncuti Gatwa) vão à procura de adolescentes com problemas sexuais, sejam eles a dificuldade de fazer um boquete, como broxar um pênis ereto há várias horas, como gozar ou como fazer sexo lésbico.

A série tem um pé no um clichezão John Hughes dos aos 80: nós temos o grupo de meninas populares e ricas, a menina excluída paraiah social, o cara atlético que é adorado por todos, o cara problemático que no fundo só é problemático porque sua família na verdade é super complicada e semi-abusiva e, finalmente, o cara meio nerd que caiu de cabeça em tudo isso. É um Clube dos Cinco expandido, especialmente dado que a trilha sonora e a cidade pequena onde todo mundo anda de bicicleta só aumentam essa vibe anos 80.

Ao contrário de Clube dos Cinco, no entanto, Sex Education faz questão de quebrar vários dos estereótipos que monta. Por exemplo, a menina que é constantemente hostilizada por todos também é secretamente melhor amiga de uma das meninas populares e acaba namorando abertamente o cara mais popular da escola. O cara mais popular da escola, por sua vez, é adotado por duas mães e toma ansiolíticos desde os 13 anos. Um cara super gordo se torna um Deus sexual intergaláctico ao olhos de uma menina que quer muito transar.

Um dos clichês que a série quebra de maneira mais enfática é a masculinidade tóxica. Otis não consegue/não gosta/não quer se masturbar, mas isso não faz dele menos homem, não faz dele assexual, só faz dele um cara que não se masturba. Ele ainda sai com meninas e tem desejos sexuais, ele consegue dar conselhos amorosos para os outros e, mesmo essa sendo uma questão que o preocupa, ele não se sente menor por isso e, mais importante, seu melhor amigo Eric também não o faz se sentir menor por isso. A relação entre Otis e Eric também é maravilhosa, mesmo com seus altos e baixos, ela é verdadeira e sincera. Otis é um homem hétero, Eric é um homem gay, e os dois andam juntos e se abraçam e se vestem em Drag juntos para assistir musicais. Otis dança com o melhor amigo no baile de final de ano. Tudo isso sem precisar das reafirmações de “not gay” como em The Lonely Island.

Eric também tem uma das storylines mais interessantes e bem exploradas da série. Ele é um jovem gay, negro, de família migrante e super religiosa, que se vê isolado em sua escola. O único outro gay no colégio o ignora e ele não tem com quem conversar sobre certas coisas, já que Otis está ocupado demais correndo por aí fazendo terapia com Maeve. Aos poucos Eric se vê entre duas possibilidades, voltar à religiosidade de sua família e tentar “esquecer” seu lado homossexual, ou se declarar abertamente para todos e ser quem ele realmente gostaria de ser. No final das contas, a narrativa que normalmente seria levada para o “sua família homofóbica religiosa não te entende” na verdade se transforma em “seus pais não compreendem completamente essa nova realidade que você está entrando e estão preocupados com a sua segurança, mas eles também só querem que você seja feliz e estarão do seu lado não importa o que aconteça”. Eric, no final das contas, passa a usar sua forte inspiração na cultura Drag para se vestir de maneira mais colorida e ousada, com unha pintada, jóias e maquiagem. Ele representa novas possibilidades dentro dessa pequena cidade e é talvez nossa conexão com o futuro e o mundo depois do colegial.

No entanto, nem tudo são flores em Sex Education. Com a mesma mão que a série dá, a série tira. Maeve, por exemplo, tem um belíssimo e sensível episódio sobre aborto. Na clínica ela encontra uma mulher mais velha que aparentemente já teve vários e vários abortos. Maeve parece julgá-la a principio, trazendo toda a pressão social de “mulheres negligentes”. No final descobrimos que essa mulher na verdade já é mãe de quatro e tem que sustentar toda uma família, mas seu marido insiste em transar sem camisinha e eles simplesmente não podem manter mais filhos. Saímos do clichê de que mulheres que abortam não querem ter filhos nunca, ou só quem aborta é jovem e inconsequente. Essa é uma realidade social raramente explorada na TV e foi refrescante ver um assunto tão sério tratado de maneira tão inteligente e respeitosa. Não teve nada de Maeve se arrepender ou sair correndo. Teve medo, teve dor, mas também teve certeza de suas escolhas.

Maaaas, por outro lado Sex Education também deixa de explorar várias storylines importantes em nome de interações superficiais. A própria Maeve tem todo um passado e histórico familiar que nos é quase desconhecido. Ela mora sozinha num trailer que não sabemos como ela consegue pagar (certamente não é só com dinheiro da falsa terapia sexual). Toda a questão da ansiedade de Jackson – o esportista – também é trazida tão rapidamente que pode ter sido esquecida por muitos. O próprio relacionamento de Otis com seus pais, apesar de ser o eixo central da série, é explorado apenas superficialmente.

Muitas dessas coisas podem ser e provavelmente serão exploradas na próxima temporada, mas havia oportunidade e tempo para isso na primeira, para contextualizar, para tornar os personagens mais bem construídos e fundamentados. Como está, nós sabemos que existe 3x mais iceberg abaixo da superfície, mas ele está completamente velado para nós.

Esse, porém, não é o problema maior da série. Talvez o pior clichê sustentado por Sex Education seja o de Adam Groff, o Judd Nelson do grupo. Ele é o cara problemático que briga com todo mundo na escola, mas só porque seus pais na verdade são tão, tão terríveis. Se em Clube dos Cinco essa história já era um pouco difícil de engolir, em 2019 ela fica semi impossível. Além disso Groff, o cara mais homofóbico da escola, é secretamente gay (ou bi). Outro clichê que deveria ter sido esquecido lá 2009 em Glee. A idéia de que pessoas homofóbicas são gays enrustidos é danosa para a comunidade LGBTQ+ pois diminui a luta contra a homofobia e ainda associa ao próprio grupo as causas de seu sofrimento. Para uma série tão #woke, Sex Education caiu feio aqui e espanta ver como esse assunto foi pouco discutido em criticas.

Ainda que tenha alguns poréns, a série permanece sendo maravilhosa. Ela trata com leveza e seriedade assuntos muito complexos e ainda traz um cast verdadeiramente jovem e talentoso. Gillian Anderson também traz um elemento de vida e descontração que surpreende muito, especialmente para quem estava acostumado com seus papéis em The X Files ou Hannibal. Que sua presença em tela sempre foi magnética e que é semi-impossível não se sentir imediatamente atraído, isso todo mundo já sabia, mas a graça e humor que ela traz para Jean me faz pensar por que demoramos tanto tempo para vê-la em uma comédia. É evidente o quanto Gillian está se divertindo e por isso nós também nos divertimos com ela.

Apesar de não ter nada a ver em temática, Sex Education tem um tipo de humor “wholesome” misturado com sarcasmo que me lembra um pouco Please Like Me, especialmente quando fazendo graça de assuntos sérios sem minimizá-los. Se você gosta da série australiana, muito provavelmente vai gostar dessa também, apesar do tom mais adolescente.