Sierra Burgess não sabe o que quer

 

Sierra Burgess não é uma perdedora, ela só tem múltiplas personalidades (filmicas) e nenhuma delas se encaixa direito.

Quase como a Trifle da Rachel Green em Friends, esse filme tem várias camadas e nem tudo combina entre sí.

Primeiro começamos com o conceito, que parece ser comédia romântica adolescente, mas não é. O Trailer nos vende uma mistura clássica entre um “me apaixonei pela pessoa errada” Shakespereano (como em Noite de Reis, onde uma mulher se veste de homem e acaba se apaixonando por um outro homem e uma mulher se apaixona por ela e é uma confusão. Ouça o episódio do meu podcast Quarta Parede para saber mais sobre o assunto) e  uma make-over no estilo “She’s All That“.  Eu esperava, pelo bafafá que ouvi nas interwebs, que essa fosse uma história leve, cheia de clichês, mas ainda assim com lições importantes, mas não é.

A direção de arte do filme é inteira em tons marrons, cinzas e cores semi-mortas do que seria um colegial de verdade, trazendo não só um ar de realismo, como também apagando qualquer tom lúdico ou mais leve e “carefree” que poderíamos ter ali (acho que esse filme definitivamente não viu a maravilhosa direção de arte de “To All The Boys…” porque se existe uma arte que dita o tom de um filme perfeitamente, é essa… mas voltando ao tópico…). A fotografia também não colabora. A iluminação escura e câmera na mão, juntamente com a incessante trilha sonora instrumental meio creepy e de suspense, tornam o filme hiper-realista e com ares de drama, algo que poderia ser interessante, se fosse inteiramente seguido pela trama.

A trama, coitada, até tenta um pouco se fazer mais séria – e confesso, o filme teria sido melhor se tivesse se entregado totalmente à uma coisa ou à outra.

Existe um comentário social interessante permeando a narrativa, mas ele nunca é completamente explorado. O Background da Verônica é um ótimo exemplo disso. A menina mais bonita e popular da escola,  na verdade mora em uma casa pequena e bagunçada, vem de uma família com sérios problemas e que poderia ser considerada “white trash” (controverso isso, assumo), com uma mãe obesa e solteira e irmãs gêmeas que parecem uma mistura de Honey Boo Boo e Little Miss Sunshine versão do mal. Isso poderia dar pano pra manga e gerar discussões mais profundas, explicando melhor a personagem da Verônica. Dando contexto ao seu ódio no começo. Sua obsessão com a beleza, seria, na verdade, sua obsessão com a única coisa ali que lhe dá status – até porque a Sierra claramente tem dinheiro, seu pai é um escritor famoso; dentro da cadeia alimentar do capitalismo ela sairia ganhando – mas não ali, ali a ordem do dia é a beleza. Isso também serviria para humanizar a personagem, mostrando o quanto as aparências nem sempre casam com a realidade, e estamos todos num jogo de fumaça e espelhos, mas nãããão. A trama joga esse subtexto (super sério e pesado, alias) ali e saí correndo. Não quer encostar no ninho de vespas que criou, por mais relevante que ele seja.

O filme quer ares de realidade com a direção de arte, a fotografia e com seu sabor de crítica social (como a menina que faz slam poetry) mas não se aprofunda em nada. Cria personagens vazios, caricatos e cujas motivações são frágeis e superficiais. Parece que a direção tem um ritmo enquanto o roteiro tem outro. Há aí um enorme descompasso, por isso várias das piadas não colam (era para a troca de memes por mensagem ser engraçada? Porque definitivamente não foi nem engraçada, nem fofa, nem nada, só patética mesmo). Por isso as relações parecem tão inorgânicas, algo ilustrado em especial entre Sierra e seu suposto melhor amigo Dan. Não dá pra saber porque os dois são amigos, já que eles estão constantemente se tratando mal, furando o olho um do outro, quase como alguém que só está ali a espera de algo melhor. Acho que eles miraram em uma amizade entre opostos, competitiva e por vezes até agressiva, mas no final do dia real e duradoura, estilo Rory e Paris em Gilmore Girls, mas não colou. Desculpa. Pode voltar e refazer.

O descompasso não para por aí. A questão da aparência da Sierra é algo que eu passei o tempo inteiro achando que seria discutido mais profundamente, seja para problematizar o conceito de beleza na sociedade, seja pra seguir o trope onde ela faria um make-over e se descobriria linda – e existe algo a ser dito sobre isso. A questão maior do clichê make-over é que, no final das contas, a menina “patinho feio” sempre foi, na verdade, linda. Eu queria isso pra Sierra, que a menina ruiva, de sardinhas, gorda e que toca na banca fosse, no final do dia, linda, e que a gente percebesse que na verdade ela sempre foi linda, desde o primeiro momento… mas isso não acontece. Não só porque o filme não segue o clichê, mas porque ele também é incapaz de enxergar Sierra Burgess como bonita. O pai dela, o interesse romântico, todo mundo reforça constantemente o quanto as aparências não importam, vejam só como Sierra é inteligente e talentosa e todas essas outras coisas. Você passa a gostar dela “apesar” das aparências, como se alguém gordo não pudesse nunca ser bonito, gordo tem que superar essa grande falha e ser duplamente outras coisas, duplamente inteligente, duplamente talentoso, vamos logo superar essa imperfeição aqui do seu corpo em nome de outras coisas.

até porque olha essa mulher que maravilhosa! ela merece ser lindona numa make-over pra depois todo mundo descobrir “aaah, ela sempre foi linda”

A questão é que: 1. gordo pode ser bonito sim! e 2. ninguém vive só de intelecto, ninguém é só um cérebro ambulante. Todos nós temos corpo e queremos ser desejados e queremos os aspectos físicos que vem com uma relação amorosa. Ignorar isso é podar o crescimento da personagem, que, alias, já que chegamos aqui, não tem arco de crescimento algum. Enquanto Verônica passa a ter mais amor próprio, confronta sua família e suas amizades tóxicas, e se torna mais interessada nos estudos, Sierra aprende o que? Que seu corpo continua tendo de ser ignorado se ela quiser ser amada e que se você errar feito, mas feio mesmo, tipo expor desnecessariamente e de maneira mesquinha a amiga que só te ajudou, ou abusar fisicamente de um cara (porque, sim, você beijar uma pessoa que não sabe que está beijando você é abuso) está tudo bem, é só você escrever uma música e eles te perdoam?

Enquanto Verônica aceita as desculpas da amiga e faz o melhor por ela, Sierra não retribui o gesto. Acho que justamente por isso, por essa resolução tão fraca entre as amigas, que não acredito no crescimento da personagem principal. O  trunfo da narrativa está, na verdade, na amizade entre Verônica e Sierra, e como uma faz a outra ser uma pessoa melhor. Quando o foco da Sierra está no garoto e não na amizade, seu arco de personagem enfraquece e ela sai sem ter aprendido lição alguma. Se Jamey, o único ali que permanece verdadeiro, honesto e aberto aos outros o tempo todo (e que justamente por isso não merece o final que tem) tivesse ido até Sierra e dito, eu compreendo e te perdôo e nós podemos ser amigos, mas não é comigo que você tem que ir no baile. Eu não sou a metade da laranja que você está procurando, a Verônica é; aí sim Sierra cresceria verdadeiramente.

E chegamos então a qual conclusão? Bom, não sei, talvez que o filme nos enganou vendendo uma coisa e entregando outra? Ou que o direção e roteiro ficaram confusos entre sí e por isso misturaram carne e ervilhas dramáticas na sobremesa do rom-com? Que está tendo bafafá da problematização no twitter (não toquei muito no assunto aqui, mas recomendo muito vocês verem algumas threads que retweetei sobre representatividade gorda e sobre como Sierra falha no conceito rom-com)? Que, no final do dia, esse filme seria 100% melhor se Jeremy terminasse sozinho (ou enfim, na minha cama, cof cof… falei nada) e Sierra tivesse um final mais satisfatório com seu verdadeiro amor: Verônica? Sim, acho que é isso.

 

6 comments

  • Fernanda Renton

    olha é isso, esse filme é um desastre e só oq importa são os personagens secundários. e meu não entendi até agora pq o ****jamey quis ficar com ela. que roteiro pobre rs

    ah, sem contar em toda a parte catfish né? vamos lembrar do quão problemático é isso, depois da gebte ver tão bem o quanto isso machuca as pessoas no proprio reality rs

    enfim, amei a estreia do blog! atentissima

    • Anna Livia Marques (author)

      sim, eu sinto que eles tentaram desviar do catfish com a história de “ela não propositalmente procurou ele”, okay, mas ela perpetuou! pra mim a parte mais problemática TEM que ser o beijo que ela deu nele sem ele saber que era ela. gente, isso não pode nunca como assiiiim? obrigada por vir pro blog, miga, sucesso pra todas nós

  • Aline

    Oi. Acho que você deveria linkar as threads para entendermos mais sobre body positive e tudo mais.

    Eu tinha até que achando o filme simpático mas fiquei com a sensação que a protagonista mesmo era a verônica e não a sierra justamente pelo que vc falou. A Veronica se desenvolveu mais como personagem e eu também achei a história dela super jogada. Eu achei a sierra egoista e mesquinha demais. Ela vazar a foto daquela forma? Sério? Fora o fim né? Vou ficar contigo só pq vc é legal pq realmente tu é gorda e não olharia pra vc mas já que estamos aqui…

    Tb acho q ela deveria ficar com a Veronica hahaha ia ser tão melhor

  • Lucas

    Acho que Para Todos os Garotos que Já Amei é um filme mais bem resolvido e que parece menos pretensioso, vamos ver qual vai ser a dos outros filmes dessa leva teen recente do Netflix. Achei o texto muito bom e estou ansioso para ler os comentários de vocês, além de ouvi-los nos podcasts.

    • Anna Livia Marques (author)

      ebaaaa, chega mais, chega mais! eu gostei bastante de To All The Boys, especialmente porque ele atende os clichês e ao mesmo tempo os quebra, subverte e transforma. é isso que a gente espera de filmes teen nos anos 2010’s.

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