TESORO, NON È COME CREDI…

O sol de Verona já começava a brilhar no céu, dando os primeiros indícios de um dia quente de verão. Sherry terminava de arrumar a mala enquanto Raphaël aguardava paciente tomando seu café recém-coado.

 —  Tô pronta! Vamos?  —  Apareceu ofegante, depois de ter que sentar em cima da própria mala para conseguir fechá-la. Raphaël tinha avisado para que ela não levasse tanta coisa e que não a ajudaria a carregar nada. Sherry sempre fazia o que queria.

 —  Uau, que vitória! Você é mesmo uma mulher independente.  —  Raphaël respondeu brincando.

A morena bronzeada revirou os olhos, mas deu um beijo nos lábios molhados de café do namorado de qualquer forma. Ele largou a caneca vazia na pia da cozinha comunitária do hostel e colocou a mochila de viajante nas costas, seguindo para a recepção para fazer o check-out.

O carro alugado em uma agência de Roma já tinha rodado várias cidades até então: Perúgia, Siena, Florença, Modena, Bolonha, Parma e agora seguiam para Veneza. De lá pegariam um avião para Milão, onde Sherry passaria metade daquele ano antes de se mudar de vez para Roma. Era uma viagem a dois e nos últimas três dias tinham visitado os lugares mais românticos da Itália inteira: casa da Julieta, casa de Romeu …  as ruas de Verona, por si só, foram feitas para apaixonados, mas diziam que não existia nada como passear de gôndola pelos canais de Veneza ou comer uma pizza apreciando a vista.

 —  Que fedor!  —  Sherry esbravejou livremente, já que o gondoleiro não entendia.

 —  Louca! É verão, o que você esperava?  — Raphaël riu da careta espontânea que a namorada fez.

 —  Mas nossa.  —  Começou novamente, olhando em volta como se não acreditasse que o cheiro vinha das águas que eram tão bonitas de se ver.  —  Como essa gente consegue viver aqui? Que terror!

Antes que pudesse reclamar mais, Raphaël a mandou fazer uma pose para que tirassem foto com a vista. Depois gravaram um vídeo juntos daquele momento  —  estavam registrando tudo para o canal de youtube que tinham criado para subir vídeos de suas viagens. No final, Sherry Anne até esqueceu do cheiro que vinha dos canais.

Faziam dois anos que Raphaël e Sherry estavam juntos. Se conheceram no penúltimo ano da escola, quando ela entrou na mesma sala que ele e Diane, depois de ser transferida quando os pais se mudaram para Barcelona. O nome diferente, o sotaque forte e as roupas sempre na moda fizeram as pessoas quererem se aproximar e disputar a vaga de melhor amiga ou amigo da morena, mas no final quem recebeu o prêmio foi Diane, quando teve de fazer um trabalho em dupla com ela. Raphaël veio de brinde  —  e de amigos passaram a ser namorados em questão de semanas. Agora, com Sherry prestes a estudar em outro país por alguns anos, aquela viagem trazia uma sensação estranha de despedida.

 —  E aí, como estou?!  —  perguntou quando saiu do banheiro com um vestido preto curto, botas de combate, jaqueta de couro e maquiagem de rockstar.

 —  Espero que tenham fotógrafos nessa festa, porque precisamos ser vistos.

Raphaël parecia ter saído direto de um filme dos anos 80: camisa estampada, calça mom jeans, botas e jaqueta iguais as de Sherry Anne. Foi quase como se tivessem comprado no mesmo lugar. Os recepcionistas mal estranharam quando passaram pelo hall de entrada  —  aparentemente, em San Marco, bairro onde estavam hospedados, era normal as pessoas se vestirem para serem vistas.

Antes de irem para a festa que a amiga de Sherry tinha indicado, foram jantar em uma trattoria com luzes penduradas na varanda que encontraram ao sair sem rumo pelas ruelas naquela tarde. Pediram três tipos de massa e compraram uma garrafa de vinho. Era dia de comemorar, mas também de se preparar para os próximos cinco dias. Os últimos cinco dias.

Quando pagaram a conta, receberam dois cannolis em uma caixa com um laço do garçom. “Para casais apaixonados” disse ao entregar para Raphaël, e os dois seguiram comendo pelas ruas, bêbados e rindo, em direção à casa noturna. Como era bom ter dezoito anos!

De Strokes à Killers, à Maroon 5, à Britney Spears, à Lady Gaga. Cada DJ que entrava era um novo setlist inesperado. Não que ligassem, afinal, sabiam a letra de tudo  —  desde Last Nite à Poker Face e Oops! I did it again. Estavam felizes e loucos. Fizeram amizades com o pessoal do bar e com um grupo de viajantes hospedado em um hostel ali perto. Dividiram drinks exuberantes e ensaiaram uma coreografia que claramente seria um fracasso no meio da pista. Não importava, estavam se divertindo. E mais que um casal, eram os melhores amigos que poderiam ter. Aquele momento era deles.

Depois de dançar o máximo com uma leva de músicas do começo dos anos 2000, Rapha seguiu para o banheiro enquanto Sherry dançava com os amigos novos. As cabines eram poucas e por isso a fila estava maior do que deveria, então encostou na parede quando o cara da frente, que estava com um amigo, virou para ele.

 —  Qual seu nome?  —  perguntou o rapaz alto e negro, com um black power de dar inveja. O amigo loiro se virou para observar Raphaël, e bêbado, o moreno só conseguiu admirar o contraste de cores dos dois.

 —  Raphaël. E o de vocês?

 —  Eu sou o Carlo, ele é Michele.

 —  Prazer!  —  o moreno respondeu com um sorriso largo e apertando a mão dos rapazes.

 —  E aí? Sua amiga é solteira?  —  Carlo ajeitou a camiseta enquanto parecia ansioso com a resposta.

 —  Ela é minha namorada.

 —  E sua namorada sabe que você é gay?

Os dois riram, como se parecesse óbvio, mas Raphaël congelou. Seu segredo, aquele que guardava sempre à sete chaves, aquele que achava que, depois de Sherry, não era mais verdade, tinha voltado à tona no momento mais vulnerável em que poderia se encontrar. Michele deu dois tapas no ombro do moreno ao perceber seu choque.

 — É brincadeira, relaxa!

Mas não era, e Raphaël sabia. De qualquer forma, fez amizade com a dupla, e quando voltou para a pista, os dois o acompanharam e se infiltraram no grupo grande que haviam formado. O resto da noite foi meio estranho. A chave na cabeça de Raphaël tinha sido virada novamente e era impossível enxergar tudo da forma que estava enxergando há horas atrás. Era impossível voltar a se convencer que gostava de Sherry daquela forma. Era impossível negar que, se estivesse sozinho, estaria beijando a boca convidativa de Michele. Era impossível negar quem ele era.

Voltaram para o hostel mais cedo do que o planejado, e apesar da morena ter conseguido tirar a roupa e dormir em dois minutos, Raphaël levou horas para desligar. Pensar demais àquela hora e com tudo rodando na cabeça era loucura. Em algum momento pegou no sono, e quando acordou, conseguiu se convencer que tudo não passava de um sonho ruim. Tinha um dia de passeios turísticos pelo bairro de Veneza antes de partirem, no dia seguinte, para Milão. E seu término de namoro já estava claro, ainda que não em palavras.

Sherry Anne já tinha se despedido da família, dos amigos e de tudo o que conhecia. A notícia que seu namorado (ou seria ex?) era gay poderia ser adiada… Mas não por muito tempo  — Raphaël não conseguiria guardar esse segredo mais, pelo menos não pra ela.

Pelo menos não depois de, sorrateiramente no fumódromo da casa noturna, Michele ter roubado um beijo seu, longe de todo mundo, e ter despertado aquilo que Raphaël tinha guardado tempo demais para voltar a ser enterrado.

 

 

TESORO, NON È COME CREDI… faz parte da série de ficção (des)encontros criada por Fernanda Rentz. Vocês podem ler o texto anterior AQUI e acompanhar no Allora as próximas publicações toda quarta-feira.